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A VOZ DO POVO – Crônica de João Eichbaum

28 de setembro, 2018 às 14:51 - por João Eichbaum

Umberto Ecco pisou na jaca podre, antes de morrer: chamou de idiotas os usuários das redes sociais. Triste testamento, para quem teve seu tempo de glória no olimpo literário. Sua obra “O Nome da Rosa” levou o mundo a pensar nele, como num homem sábio.

Embora não com o mesmo adjetivo, que demonstra desprezo e soberba, a grande imprensa, de um modo geral, trata o Face Book como uma tela de ignorância, pintada com dedos sujos de maldade. Para não dizer como parede de latrina, sem papel…

Ecco, o famoso e já falecido escritor italiano, não conseguiu domar sua misantropia e revelou desconhecimento da espécie humana. Ao chamar de idiotas os usuários das redes sociais, negou seus personagens, as criaturas geradas por ele em O Nome da Rosa, enroscadas nas fraquezas do próprio ego.

A grande imprensa, como Umberto Ecco, se acha melhor do que os outros. Porque é dona de veículos de publicidade, porque tem o poder de difundir ideias e tragédias, não se dá conta de que depende de homens para se afirmar ou, menos do que isso, para existir, simplesmente.

Muitos desses homens não são quem ela faz pensar que são. No momento em que o país vive uma tensão política chamuscada por centelhas de ódio, as fraquezas se desnudam e o fanatismo nivela todo mundo por baixo. Crônicas, artigos e as mais variadas formas de comunicação, vêm encharcadas de paixões e despidas de qualidade. A beleza literária, que antigamente distinguia o jornalista, que fazia do jornalista um perito na arte de escrever, hoje é posposta pelos sentimentos, pelas tendências pessoais, pela soberba e pela indecência de textos mal construídos.

Nesse nível, o jornalismo profissional se iguala aos usuários das redes sociais. O Face Book é o jornal do povo, um veículo de comunicação com abrangência bem maior que os da grande imprensa. Os seres humanos, que dele se servem para mostrar seu chorinho de cachorro molhado, seu terror de existir, ou seu poema que faz chorar as estrelas, revelam o que são, não precisam de revisores e não têm que se dobrar à vontade dos patrões.

Do misticismo ao realismo, da execração ao fascínio, cada pessoa tem o seu universo, cada um vê a sua parte na história e a retrata dentro dos próprios limites. Assim, exerce sua liberdade de expressão, um direito que só é negado por aqueles que, desconhecendo a humanidade, não merecem ser tratados como guias e, muito menos, como sábios.

 

Autor

João Eichbaum

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