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A vida íntima de Judite – Crônica de Mariléia Sell

25 de abril, 2018 às 19:22 - por Mariléia Sell

A notícia trouxe completa desolação para Valentina. Judite tinha morrido. As condições da morte não estavam muito bem explicadas. “Morreu de velha”, diagnosticou a avó da menina, Dona Dóris. Valentina nunca tinha ouvido falar que galinhas morriam de velhas, aliás nunca havia pensado sobre a velhice das galinhas. A morte de Judite, definitivamente, precisava de mais explicações. Há poucos dias, ainda a vira enfiada nos repolhos da horta, bicando com a fúria de uma franguinha. Tinha vida social ativa. Andava sempre em comitiva pelo pátio, com as amigas do galinheiro. Ciscavam juntas, porque amigas ciscam juntas. Para uma galinha, não há prazer maior do que ter chão debaixo dos pés para ciscar. E chão havia. Havia tanto que elas se aventuravam em explorações territoriais cada dia mais longínquas. Com suas cabeças mal pregadas ao corpo, ciscavam terras nunca dantes ciscadas. A meta existencial de uma galinha é achar comida, qualquer comida, não importa, e neste propósito lançavam-se com todo o ardor. Voltavam sempre satisfeitíssimas ao anoitecer. Uma vida plena, é o que tinham, Judite e suas amigas.

Judite era a mais mansa de todas as galinhas do seu grupo e deixava-se pegar no colo por Valentina. Nunca se saberia se ela, de fato, apreciava esse gesto. Difícil prever o que passa pela cabeça de uma galinha, presumindo, é claro, que passe algo. O fato é que Judite ostentava aquele olhar de alheamento que só uma galinha sabe ostentar.  Apesar dessa aparência estúpida, Judite não era uma galinha das mais ordinárias. Tinha prestígio. Nunca falhara com o seu compromisso diário. E orgulhava-se da sua constância; não havia turbulência no mundo que a desviasse da sua missão de galinha sobre esta terra. Era uma galinha de currículo blindado. E não deixava por menos: em matéria de propaganda, Judite não era boba: cacarejava para que todo mundo soubesse de sua competência. Para uma galinha, é importante manter a reputação em dia, porque sempre se acha outra utilidade para as incompetentes. Galinhas precisam ser úteis. Nada mais. Não se tem maiores expectativas sociais sobre galinhas.

Tudo corria bem para Judite. Continuava a funcionária modelo do sítio. Ano após ano, batia ponto no galinheiro: ninguém poderia acusá-la de indolência. Porém, e provavelmente ela nunca tivesse pensado sobre isso, a idade é o terror de todos as coisas que se mexem. Isso também se aplicava às galinhas. No vigor da juventude, no auge da produtividade, ninguém lembra da inevitável lerdeza na velhice. No caso de Judite, ela ainda batia a sua meta diária de colocar um ovo. O problema é que já não eram os mesmos ovos e isso, claro, não passou desapercebido pelo setor de controle. Já não se poderia mais certificar os ovos de Judite com algum ISO qualquer. Os ovos estavam com seríssimos problemas de qualidade. E o mundo perdoa qualquer coisa, menos a falta de qualidade, menos o prejuízo. Em tempos de aclamado pragmatismo, de elaborados cálculos econômicos que precisam a relação custo benefício, de elaboradíssimos gráficos que revelam a evolução da produção, baixar a qualidade significa a adoção de medidas de austeridade. Judite enfrentaria medidas de austeridade, seria substituída por alguma galinha mais jovem.  Essa regra aplica-se a galinhas e também a humanos. O mundo é assim.

Voltando aos ovos de Judite, eles já não tinham a consistência dos ovos das colegas mais jovens. A clara e a gema não tinham mais os limites firmes da casca e desmanchavam-se ao mínimo toque. Não faltaram relatórios de Dona Dóris para atestar a carência de cálcio nas cascas. Isso, claro, é um fato preocupante. Para Judite. Porque há sempre outra utilidade para uma galinha. Porque a humanidade não tem tempo para se abalar com o destino de uma galinha, seja a Judite ou seja a Laura.

No almoço daquele sábado, entre um prato e outro de galinhada, Valentina voltou a inquerir a avó sobre a morte suspeita da Judite, sua galinha favorita. “A Judite morreu de velha; todas nós morremos de velhas, minha filha”.

Mariléia Sell é Professora Doutora dos Cursos de Letras e Comunicação da Unisinos

Autora

Mariléia Sell

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