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Vamos embora, Márcia? – Crônica de Mariléia Sell

12 de abril, 2018 às 15:35 - por Mariléia Sell

Instalada no computador, tela branquinha para derramar todo o meu talento de escritora, mente mais árida que o Saara, escuto Márcia gritando repetidas vezes: “eu quero ir embora; eu quero ir embora, eu quero ir embooooora”. Márcia é a minha vizinha do primeiro andar, ela tem 36 anos, nunca conseguiu decifrar as letras, embora seja ótima em números, como assegura a mãe, com indisfarçado orgulho: “vai sozinha ao banco, conhece dinheiro e não é nada boba”. Mais do que tudo na vida, gosta de brincar e, sempre que a ocasião se faz, lança olhos compridos e cobiçosos para as bonecas da Valentina. Conhece todas as falas do Chaves e se aborrece terrivelmente quando perde algum episódio. É figura conhecida no shopping center; lá ela passa tardes e mais tardes, vendo as gentes passarem. Os habitués já a incorporaram à paisagem.  É gremista. Tem uma certa repulsa a colorados. Como o meu entendimento sobre futebol não ultrapassa a noção de que no jogo existe uma bola, procuro não angariar a antipatia dela. Não lhe digo que tenho memórias afetivas com o time vermelho. Apenas digo que o azul lhe cai bem. Ela fica envaidecida e engasga de tanto rir.

Quando está de bom humor, Márcia gosta de conversar. Ela me atualiza de todas as querelas do condomínio, quer eu me interesse, ou não. Queixa-se da sujeira das calçadas, mas é cidadã que não permanece só na queixa: seguidamente ela mesma varre a frente do prédio. Escorada na vassoura, observa a movimentação da rua. Queixa-se das folhas de outono, como fazem sujeira! Quando lhe falta disposição para a interação social, diz que está ocupada e não dá as horas pra ninguém. Nesses dias de economia interacional, Márcia não perde tempo com as pequenas hipocrisias sociais que mantém todos sorrindo, em calculadas afabilidades. Certa vez fiquei trancada do lado de fora do meu apartamento e ela, incrédula, sentenciou: “como tu é burra”.

As vezes Márcia quer ir embora. Na verdade, quase todos os dias ela grita que quer ir embora. O trajeto do seu clamor é sempre o mesmo: as notas agudas sobem até o terceiro andar, entram pela minha janela, grudam nos meus ouvidos e se acomodam na minha alma, como um profundo lamento existencial. Quando lhe pergunto para onde ela gostaria de ir, ela retruca, enfurecida, que isso não é da minha conta. Ela está certa. Eu que me revolte com os meus próprios confinamentos, eu que faça o meu próprio protesto e que vá achar um lugar para onde possa ir. Eu que não interrompa a revolução dos outros.

O grito de Márcia ecoa em mim, indefinidamente. Quem não gostaria de ir embora, mesmo sem saber para onde iria, se fosse livre para ir? Quem não tem prisões para deixar para trás, as prisões conhecidas e as nem sempre percebidas? Não gritamos, não fazemos escândalo, não abalamos a normalidade do mundo. Nós, os normais, não perturbamos o vizinho com as grandes questões que ele está tão empenhado em esconder. Nós, os normais, não expomos com tanta falta de cerimônia as dores do mundo. Nós, os normais, precisamos manter a ordem, essa ordem que só se sabe ordem porque alguém vem plantar a desordem. Os anormais são essa gente inconveniente que nos lembra de que não somos livres, livres para ir, livres para dizer. Como perturbam esses anormais!

“Eu quero ir embora, eu quero ir embora, eu quero ir emboooooora”. Posso ir com você, Márcia? Não precisa me falar do itinerário, prometo não perguntar mais. Deixemos a vida nos surpreender!

Mariléia Sell é Professora Doutora dos Cursos de Letras e Comunicação da Unisinos

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