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Sodomia na casa de Deus – Crônica de Mariléia Sell

02 de maio, 2018 às 13:04 - por Mariléia Sell

A humanidade agora deu para profanar a casa de Deus. O alerta veio de um padre que foi às redes sociais expôr a sua preocupação com os rumos incertos do rebanho. Sigamos o raciocínio do padre: a igreja é a casa de Deus, ora, se somos fiéis a Deus, logo nossa casa é também a casa de Deus. Bastante óbvio. Se na igreja não se pode expôr gente pelada, sacanagem e, a pior coisa de todas, homem beijando homem, porque, diabos, ops, perdão, se poderia ver essa pouca vergonha na própria casa, argumentava ele, por analogia. Nessa lógica, nossa casa não seria também a casa de Deus? Uma casa santificada? Ninguém com  noções rudimentares de lógica poderia refutar um argumento teológico tão robusto. Quem não quer habitar uma casa que seja também a casa de Deus? Mas é justamente aí que se instala um paradoxo irreconciliável. Em suas casas, os fiéis passam horas intermináveis vendo programas recheados de conteúdos impróprios para pessoas decentes. Casas que se tornam ambientes inadequados para Deus. A conclusão é por demais óbvia, até para quem não é versado em teologia: continuamos os mesmos pecadores de quando fomos expulsos dos jardins do Eden. Com a nossa natural inclinação à imoralidade, continuaremos, por certo, sendo expulsos de muitos outros paraísos ainda, até aprender a não decepcionar Deus. Não bastou também Deus precipitar chuvas de enxofre sobre Sodoma e Gomorra para  que parássemos com essas perversões de homem beijar homem (naquela época, os escribas ainda não poderiam prever que as mulheres também se beijariam).

A revolta do padre era contra os programas de televisão, marcadamente as novelas, “que nada trazem de edificante para os fiéis”. Também não trazem nada de edificante para os infiéis, convenhamos, mas essa é outra conversa. Uma coisa, porém, é importante admitir: os pastelões oferecem um catálogo de pecados sempre a disposição para uso pedagógico nas santas missas. Ninguém precisa lançar-se a extensas pesquisas para ver até onde vai a iniquidade humana, basta ver a novela das nove. Está tudo lá!

Está escrito no antigo e no novo testamento, para que não restem dúvidas, que Deus não aprova essa coisa de homens se beijarem. Não é natural! Mesmo assim, o descaramento dos gays não tem limites. Como se não bastasse a petulância de existirem, agora saem por aí de mãos dadas, infestam praças de alimentação, onde as famílias brasileiras aproveitam seus domingos plácidos. E, pior do que todas essas infâmias, eles agora se beijam em público, e na televisão. E nossas crianças, como fazer para proteger a sua inocência, se eles estão por aí, fazendo dos parques a versão contemporânea de Sodoma e Gomorra? Se a sua existência for mesmo inevitável, se não conseguem refrear suas paixões mais degradantes, poderiam, ao menos, ficar escondidos em casa, limitar suas manifestações às quatro paredes. Mas, não, eles agora nos confrontam ostensivamente. Não demonstram nenhum pudor em sua vocação para o escândalo e em sua determinação em ofender nossos olhos tão sensíveis a essa imoralidade. As pessoas de bem agora precisam conviver com mais isso, valha-nos, Deus!

Estaria mais do que na hora de haver uma nova limpeza na terra. Novas chuvas de enxofre talvez dessem jeito.  A tolerância divina para com a lascívia desenfreada não é tão ilimitada assim, como bem sabemos. Volta e meia Deus  perde as estribeiras com as suas criaturas imperfeitas e põe tudo abaixo. Quando as chuvas infernais vierem e os eleitos à terra prometida, leia-se os heterossexuais, forem chamados, é importante não olhar para trás. É crucial conter a curiosidade, Deus também não gosta de gente curiosa, que o diga a mulher de Ló. Até lá, cabe aos padres continuarem seu árduo trabalho de conduzir os fiéis, sempre tão tentados aos desvios. E que rezem para que os tetos de algumas sacristias sejam  à prova de chuva de enxofre! Amém!

Mariléia Sell é Professora Doutora dos Cursos de Letras e Comunicação da Unisinos

 

Autora

Mariléia Sell

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