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SÓ O INFERNO NÃO TEM FRONTEIRAS – Crônica de João Eichbaum

17 de agosto, 2018 às 16:21 - por João Eichbaum

A madrasta a tinha vendido para um desconhecido, sem que ela o soubesse. Dominada por um homem barbudo, de braços nodosos, foi jogada inerme no porta-malas de um automóvel. Debalde berrou, se esbateu, gritou por socorro. Sufocada, sem ar, chorando, acabou dominada pelo cansaço.

Desembarcaram-na na Líbia, para fazer dela uma escrava sexual. Ela, que nunca tinha encostado sua carne na carne de um homem, se negou ao vilipêndio. Então lhe cuspiram no rosto e a submeteram ao suplício: deitaram-na por terra, amarrando-a com o rosto voltado para o sol. Inerte, sem comida, sem água, o rosto ardido pelas queimaduras, não teve alternativa, senão deixar que lhe extirpassem a dignidade.

Foi jogada no quarto de um prostíbulo imenso e sombrio. Ali, soldados, homens de Gana, da Nigéria e da Líbia, faziam dela o escoadouro de sua lascívia animal. Escarravam nela, espancavam-na. Sob a mira das pistolas dos soldados, era obrigada a lhes satisfazer a luxúria mais sórdida, aquela de que só são capazes as bestas humanas. Por vezes, mais de cinquenta homens dela se serviram, num só dia.

Conseguiu fugir, enganada por uma mulher que, sob a promessa levá-la de volta a seu país, a explorou no meretrício. Fugiu novamente, sendo levada por outro explorador do sexo, num desses barcos clandestinos, que despejam migrantes na costa da Itália. Primeiro em Nápoles e depois em Roma, passou a fazer a única coisa que sabia: prostituir-se. Engravidou, foi repudiada pelos os homens. Foi dormir na rua, vivia de esmolas. Recolhida numa instituição social, exames médicos revelaram: está com HIV. Mas não quer abortar, não quer matar o filho de um pai que nem sabe quem é.

A história dessa criatura, Adije, nigeriana de 24 anos, é uma, entre outras de vários migrantes, contadas pela escritora e jornalista argentina Mori Ponsowi, na revista Piauí. São histórias de seres humanos que, fugindo da desgraça, ou são tragados pelo mar, ou esbarram nas fronteiras da esperança, fechadas por seus donos, os países ricos.

Assim vai a vida na terra. Enquanto alguns celebram o esplendor da noite dos esponsais, outros são condenados à morte. É abissal a desigualdade que separa os que sofrem dos que soltam seu riso superior. Quimeras de sociólogos e filósofos e orações do papa têm o mesmo efeito das opiniões dos motoristas de táxi: nada resolvem. Por tudo isso, perdido num universo que tem as próprias leis, o homem não consegue se desvencilhar dos estigmas da animalidade, do egoísmo e da maldade, que o tornaram o pior espécime do gênero a que pertence, depois que perdeu o pelo e o rabo.

 

 

 

Autor

João Eichbaum

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