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Será que teremos um novo Hitler? – Artigo de Ibanês Mariano

06 de maio, 2018 às 18:28 - por Ibanês Mariano

O mundo vive uma intensa onda conservadora e isto sempre é preocupante! Ela parece sem precedentes, pois reage a uma mudança estrutural de padrões comportamentais; de liberação de costumes e modificações tecnológicas que ocorrem numa velocidade impressionante. O tempo de maturação de cada novidade é curto. Logo estamos frente a uma inovação e outra e mais outra. Hoje, quem tem 50 anos de vida presenciou as mais intensas e profundas transformações. Até mesmo tradições estão se tornando liquidas.

Mas há também recorrências; Karl Marx, filósofo alemão, dizia que a história se repete ou em forma de farsa ou de tragédia. O contexto do início do século XX parece se repetir em seus piores aspectos. O capitalismo financeiro novamente está em crise! Milhares retornam a pobreza e morrem de fome todos os dias, enquanto uns poucos se apossam da maior parte da riqueza mundial.

Embora haja muitas diferenças, pois o contexto de hoje não é igual ao de um século atrás e as intensas transformações nos levaram em menos de trinta anos a pelo menos três grandes movimentações geopolíticas: 1° – a polarização EUAxURSSS (até 1991), 2° – depois o domínio absoluto dos EUA que atuavam como a “polícia do mundo”, 3º – na atualidade o florescimento da China, o restabelecimento da Rússia como potência militar, e os EUA (em queda); bem como a perda de poder global da Europa, permitem que os grupos de ultra-direita saiam do armário e propaguem seus discursos de ódio, raiva e preconceito.

São muitos elementos a serem destacados, mas a sensação de insegurança e a crise do Estado Moderno me parecem basilares para que algumas figuras nefastas de nossa história ressurjam. Um contexto similar produziu Hitler e Mussolini e outros de menor envergadura, mas letais para as vidas de muitos inocentes. Os movimentos que vemos na França com a nazi-facista Marine Le Pen alcançando 35% dos votos; na Alemanha com um partido de extrema direita elegendo representantes no Parlamento pela primeira vez desde a Segunda Grande Guerra (1939-1945) e nos EUA principalmente com a eleição de Donald Trump à Presidência com uma retórica sexista, xenófoba e belicista, bem como no Brasil com a candidatura do Deputado Federal Jair Bolsonaro, indicam  que os neofascistas  estão se organizando na conjuntura mundial. Sua retórica é estanque. Falam em segurança pública e corrupção. Se apresentam como paladinos da moralidade; tem um discurso conservador quanto aos costumes; são explícitos quando ao preconceito de raça, de religião e de gênero e pregam o que de pior um ser humano pode vir a ser. Estão prontos para matarem por qualquer motivo.

Gustavo Carlos Poddio, doutor em relações internacionais e professor da PUC/SP salienta as causa deste surto em entrevista ao site Nexo Jornal dizendo que : “A primeira é de ordem econômica, derivada das transformações na estrutura econômica dos países desenvolvidos que têm feito desaparecer os empregos que exigem menor grau de instrução. Isso tem aprofundado a distância não apenas econômica mas espacial e cultural entre o topo e a base da pirâmide social nesses países, o que ajuda a reforçar os impactos de uma segunda razão, que me parece a mais importante: o processo de transição demográfica em países desenvolvidos, derivado da baixa taxa de natalidade combinada com altos índices de imigração. Nesse processo, “maiorias” vão gradualmente tornando-se “minorias”, o que gera um sentimento de deslocamento econômico-social e de perda de laços identitários, abrindo espaço para forças políticas que articulam uma narrativa nativista, construindo o estrangeiro como inimigo. Finalmente, uma terceira razão é a ascensão das redes sociais e de novas formas de consumo e de produção de informação, o que permitiu a difusão de ideias que de outra forma seriam bloqueadas pelos canais de comunicação tradicionais.

(Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/entrevista/2017/09/29/Por-que-a-extrema-direita-cresce-no-mundo-segundo-este-estudioso)

No Brasil esta onda conservadora tomou forma em 2010, mais especificamente como uma reação a eleição de Dilma Rousseff à Presidência da República e como forma de descontentamento de setores da classe média e do empresariado com o avanço das leis sociais, valorização do Salário Mínimo e o que mais os irritou: a lei de que concedeu direitos trabalhistas as empregadas domésticas. A formação tradicional (tem pelo menos 200 anos) da sociedade brasileira entrou em questão, visto que, nos governos Lula e Dilma não era mais a pirâmide – com uma base alargada e um cume estreito – que definia a composição da sociedade, mas sim um losango – com o cume e a base curtas e o meio alargado, demonstrando um avanço sem igual da igualdade e do fortalecimento de um nova classe média. “Eu acho que é uma gente que se sentiu ameaçada por uma ascensão social de pessoas mais modestas. Os últimos debates sobre concentração de renda mostram que os ricos continuaram ricos, e os pobres avançaram em detrimento da classe média. Isso levou a uma exacerbação dessa mentalidade quase de apartheid social”, pondera Luis Felipe De Alencastro, professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas)

Neste contexto de combate ao segundo governo Dilma, num conluio entre setores da imprensa, judiciário, militares, empresários capitaneados por amigos (deles) externos o ovo da serpente deu cria. Esta cria tem nome e responde por Jair Bolsonaro que tenta ser uma cópia mal feita de Hitler no Brasil. Suas falas demonstram pouco inteligência, são carregadas de chavões e ele, da mesma forma que o ditador nazista quer se usar da democracia para destruí-la. Considerando que na região sul as pesquisas estimam mais de 100 mil simpatizantes do Nazismo e de que a direita – que gosta de se chamar de centro – esta sem rumo e sem candidato, corremos sim o risco de esta onda se firmar na próxima década, para o desespero de milhares, para isto basta que mantenham este quadro de ódio em combustão, mesmo que percam as possíveis eleições de 2018.

Sei que Hitler foi um exemplo extremo de maldade humana, portanto, qualquer comparação parece exagerada, mas, não esqueçamos que, após a Primeira Grande Guerra (1914-1918), ele não passava de um pintor frustrado que foi apresentado como messias pelas verdadeiras mentes do mal. Como dizemos por aqui a ocasião faz o ladrão ou só revela.  Esperemos que nenhum carniceiro igual ressurja e que todos fiquem só no nível das bestialidades de um Bolsonaro, no entanto, precisamos ficar atentos para não termos que lutar pelo direito a liberdade novamente, no Brasil e no mundo.

Ibanês Mariano é  Historiador

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