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Rasgar a pele – Crônica de Mariléia Sell

04 de abril, 2018 às 21:50 - por Mariléia Sell

Recentemente me desliguei de uma função que exercia no setor público, com todas as garantias e seguranças que o serviço público oferece. Atuo como professora concursada há quase 26 anos. São todos esses anos com uma rotina mais ou menos fixa: hora para levantar, hora para tomar café, hora para pegar trânsito, hora para almoçar, hora para voltar para casa. Hora para agendas, hora para reuniões, hora para planejar aulas, hora para executar aulas, hora para corrigir provas. Hora para fechar notas, hora para confeccionar boletins, hora para formação continuada. Ano após ano, este script diário fornece a segurança de um mundo com contornos absolutamente estáveis, um mundo com fronteiras fortemente patrulhadas, um mundo sem ameaças, tão ao nosso gosto. A institucionalidade nos dá essa segurança, como se fosse a nossa própria pele. A pele e a instituição nos protegem dos riscos e das ameaças do mundo externo, da vulnerabilidade de uma existência sem limites definidos, de uma realidade amorfa, do risco de contaminações, do estranhamento de corpos desajustados.

 É claro que o corpo, em fortuitos momentos de insurgência, realiza planos de fuga. Ele tenta sair da própria pele, criando extensões alérgicas e erupções das mais variadas espécies: o meu sempre foi inclinado a essas rebeldias cutâneas. O corpo se ressente com toda essa previsibilidade, nascido que é para a transgressão. Graças às maravilhas farmacológicas, esses inconvenientes são logo solucionados, bem ao estilo de Admirável Mundo Novo. Qualquer tentativa de revolução do corpo é contornada com cápsulas disciplinadoras e a felicidade ameaçada é prontamente restaurada com uma passada de cartão de crédito. Afinal, quem pode prescindir da disciplina cotidiana quando nos cercam perigosamente as vertigens dos abismos e quando está sempre à espreita o horror de não se ter um roteiro pré-definido para ser vivido? Precisamos de garantias, de certezas, de limites, se há algo que nos desestabiliza é a dúvida, a ambiguidade, a bifurcação do caminho.  Se é verdade que nascemos com asas, é verdade também que alegremente as penduramos em algum cabide em nome do que nos prende, em nome do que nos dá garantias, em nome daquilo que nos poupa do medo da altura. De bom grado dispensamos a altura em troca de algumas vantagens rastejando na terra.

Nem só de três pratos de feijão vive um corpo, bem sabemos. Mas também sabemos que para manter a roda do consumo, novas necessidades são criadas a cada dia. Para manter essa corrida de ratos, damos em troca todo o nosso tempo e todo o nosso potencial criador. Sem resistências, permanecemos nas nossas jaulas existenciais, sonhando com a aposentadoria, sonhando com o dia em que finalmente seremos livres, com o dia em que não teremos mais um chefe e um roteiro. Não obstante, quando esse dia chega, não sabemos bem o que fazer e, ao não saber bem o que fazer, a vida perde o sentido, um sentido que já não tinha.

Agora, afastada do serviço público, com infinitas horas a menos de trabalho, experimento, atordoada, devo admitir, horas vazias. Horas em que preciso me haver comigo mesma. Certa vez eu li que pessoas muito ocupadas são preguiçosas. Essa leitura me perturbou, porque as verdades provocam essa reação mesmo. Pessoas ocupadas demais empurram sempre para o porão as grandes questões existenciais, porque a justificativa de não ter tempo, de trabalhar demais, é socialmente louvada. Pessoas que trabalham sessenta horas por semana são heróis em um mundo que celebra a produtividade. Elas carregam uma aura de sacrifício e sacrifícios rendem a santificação na cultura judaico-cristã. O paradoxo disso tudo reside no fato de que para criar é preciso de tempo, é preciso de distanciamento, é preciso de renúncia. Para criar é preciso rasgar a pele e suportar a dor das contaminações internas e externas. Para criar é preciso ter a coragem de sair da institucionalidade, é preciso sair da cidade para enxergar a altura das torres.

Mariléia Sell é Professora Doutora dos Cursos de Letras e Comunicação da Unisinos

 

 

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