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RAQUEL E OS INDICIADOS – crônica de João Eichbaum

21 de setembro, 2017 às 10:09 - por João Eichbaum

No Brasil só há três poderes: Legislativo, Executivo e Judiciário. O Ministério Público não representa os órgãos de soberania do país, pois não é um poder. Vontade não lhe falta. Age como se fosse a cereja do bolo, mas não é um poder.

Isso significa que a PGR, sem o status de órgão de soberania, não está no mesmo nível dos Poderes da República. O estrato institucional que ocupa não exige aquela solenidade toda, aquela pomposa cerimônia que armou, para a posse de Raquel Dodge como Procuradora Geral da República.

Tal solenidade só serviu para botar o Brasil no mapa do ridículo, mais uma vez. Nenhum país, que cultive expectativas ordenadas, colocaria na mesma mesa, com toda a pompa e circunstância e o tratamento recíproco de Vossa Excelência, indiciados e acusadores.

Estampa de primeira página de alguns jornais mostra a nova chefe da Procuradoria Geral exibindo um sorriso fotográfico, tendo de um lado o presidente da República, Michel Temer, com o rosto tomado por um ricto que viaja entre a raiva e a vergonha. No outro lado, o presidente da Câmara de Deputados leva a mão à testa, traindo uma expressão de espanto, tipo assim “o que que to fazendo aqui”?

A cara do Temer e do Rodrigo Maia, assim como o sorriso arranjado de Raquel Dodge, refletem o malestar dominante na cerimônia. A operação Lava Jato, o maior instrumento contra a corrupção política, na história do país, foi sufocada por indigesto silêncio. De certo, a Procuradora Geral da República preferiu não falar em corda na presença dos enforcados…

Tudo isso mostra que a solenidade teve mais de constrangimento do que de festa. Em seu fraco discurso, no qual até quimeras do papa encontraram lugar, Raquel trata a corrupção como um substantivo que nunca se desprendeu de sua natureza abstrata. Os ideais que ressalta não são dela, mas constam do artigo 1º  da Lei Orgânica Nacional do Ministério Público.

Ao mencionar o “respeito e a harmonia entre as instituições”, porém, esqueceu da roupa suja: no seio do próprio Ministério Público Federal, hoje, “respeito e harmonia” são virtudes desfiguradas.

Uma transmissão de cargo dentro de metros quadrados mais domésticos do que suntuosos, sem pompas, sem sorrisos amarelos e adulações da alta roda, esconderia as fraquezas do Ministério Público. Assim se evitariam duas coisas: o desconforto, nos personagens da peça, e a água, que botaram no chope do povo, impedindo um brinde à operação Lava Jato.

 

Autor

João Eichbaum

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