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Quando o ridículo se enrosca na toga

16 de junho, 2017 às 16:01 - por João Eichbaum

Ministro Napoleão Nunes Maia Filho – Crédito: Reprodução/Internet

O ridículo não é impedido de entrar nos tribunais porque se enrosca nas togas. Ele, que nunca pede licença para entrar onde quer que seja, que se mete nas conversas sem ser chamado, que destrava a língua nas horas mais impróprias, pode se sentir muito à vontade entre deuses, tomando o lugar destinado às pompas e circunstâncias, onde têm assento as excelências na ciência do Direito.

Mas, o que é barrado geralmente é o senso do ridículo. E quando esse se ausenta, sua excelência, em pleno julgamento, com o peito ofegante, esbraveja, vomita a bile estragada pela ira, grita com o mundo, ignora os ritos processuais, treme os lábios como um bebê chorão, e chora mesmo, engolindo, por alguns segundos, sua empáfia.

Quando o cincerro da prudência e da boa compostura deixa de emitir seu alarme, o meritíssimo se entrega aos desvarios do ridículo, ameaça degolar detratores, invoca a lei do Profeta, mistura o Alcorão com a Bíblia, e puxa lá do fundo de sua sabedoria pensamentos que recita de viva voz e de corpo presente, para alegria dos editores da antologia do ridículo.

Togados deixados à mercê de sua inteligência, fora do alcance do radar do ridículo, estão sujeitos a estragar os pensamentos com frases emboloradas, provindas do desassossego febril do ego ferido, como essa: “Se o Supremo Tribunal Federal me colocou na lista tríplice é porque tenho saber jurídico e reputação ilibada!”

Só o senso do ridículo deixa as pessoas menos caricatas e as impede de ficar dançando ao som de disparates, para causar estranheza e arrancar interjeições.

Ridículo não combina com sabedoria, com circunspecção, com prudência, com educação e civilidade. A inteligência não convive com o ridículo, como o evitam também a dignidade e a elegância na expressão e no trato com interlocutores.

Por tudo isso, o ridículo deveria ser impedido de entrar nos tribunais desacompanhado do respectivo senso. Só assim, sabendo que, antes de começarem o julgamento dos outros, eles próprios estão sendo julgados, os juízes se comportariam como juízes. E nos poupariam de lembranças menos dignas, como a de comparar votos, sentenças e acórdãos com a necessária, mas indesejável função fisiológica de desocupar as entranhas.

Autor

João Eichbaum

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