Hoje é sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Publicidade

Promiscuidade

22 de maio, 2017 às 11:35 - por João Eichbaum

Crédito: José Cruz/Agência Brasil

Foi um silêncio encharcado de cumplicidade que tirou Michel Temer de seu falso estado de graça, e não o que a Globo espalhou, na primeira hora. Nasceu de um açodamento irresponsável a notícia de que ele havia avalizado a compra do silêncio de Eduardo Cunha.

Joesley, o açougueiro que não concluiu o ensino médio, nunca leu um livro e outra coisa não aprendeu na vida a não ser cortar e vender carne, acabou se especializando em corrupção. Para isso lhe bastam seu vocabulário pobre e sua incapacidade de exprimir um pensamento.

“Isso. O negócio dos vazamentos. O telefone lá do Eduardo com o com Geddel, volta e meia citava alguma coisa meio tangenciando a nós e não sei o quê, e eu tô lá me defendendo. Como é que eu… o que eu mais ou menos dei conta de fazer até agora? Eu tô de bem com o Eduardo”. A esse hieróglifo verbal seguiu-se a frase de Michel Temer: “Tem que manter isso, viu?”

Ora, só alguém menos alfabetizado do que Joesley será capaz de interpretar isso como “aval de Temer à compra do silêncio de Eduardo Cunha”. Mas foi daí, dessa coisa, que a Globo extraiu o escândalo que petrificou o país, deu um golpe na economia e passou a impressão de que um analfabeto pode ter mais poder de destruição do que um monte de doutores reunidos.

Não. A verdade está mais em baixo. “Todo mês, também, e tô segurando as pontas, tô indo. Nesses processos eu tô meio enrolado aqui, né, no processo assim…”, disse Joesley. E Temer: “Você está sendo investigado”.

Prosseguiu o açougueiro: “Isso, é, investigado, eu não tenho ainda denúncia. Aqui eu dei conta de um lado do juiz, dá uma segurada, do outro lado o juiz substituto, que é um cara que fica…” Temer pergunta: “Está segurando os dois”? Resposta do Joesley: “To”. E aí Temer dá a primeira escorregada na direção do crime, incentivando o criminoso: “Ótimo, ótimo”.

Foi o que bastou, para gabar-se o açougueiro: “Segurando os dois. E eu consegui um procurador, dentro da força tarefa, que está também me dando informação, e eu lá que eu tô pra dar conta de trocar o procurador que está atrás de mim.”

A partir daí, o silêncio permissivo e os monossílabos ambíguos do Temer construíram sua desgraça. A confissão de corrupção de juízes e procuradores da República não abalou o presidente, que jurou defender a Constituição e devia conhecer o Código de Processo Penal. Nem um pio de reprovação saiu da boca do Temer.

Quem com farelo se mistura, porcos o comem – diz um velho provérbio. Joesley é figura conhecidíssima do Lula, da Dilma, do Aécio e de todos os que fazem da política um meio de enriquecer. Sua intimidade com o poder foi o que lhe permitiu chegar na residência oficial do presidente em exercício, como quem chega na casa de um compadre. A pergunta que fica no ar: terá sido essa mesma intimidade que lhe permitiu deixar o país impunemente? Tem Joesley condições morais para receber “perdão judicial”, nos termos do art. 4º,§ 1º da Lei 12.850/13?

Autor

João Eichbaum

Publicidade

2016 - Todos os direitos Reservados