Publicidade

Por que nós, professores/as, temos o dever moral, ético e profissional de negar Bolsonaro? – Crônica de Mariléia Sell

26 de setembro, 2018 às 13:53 - por Mariléia Sell

Se há uma unanimidade no discurso de qualquer político e até na compreensão do senso comum é de que a educação é fundamental para o progresso de qualquer país. Entretanto, o tripé educação, saúde e segurança, de tão falados, já descambaram para um vazio semântico. Ou seja, não dizem muito, estão esvaziados de sentido. O mesmo vazio em que caíram expressões como “educar para a autonomia” e “formar cidadãos críticos”, constantes em todos os planos políticos pedagógicos de qualquer escola do país. “Educar contra qualquer tipo de discriminação” também está entre essas expressões queridinhas de qualquer projeto de qualquer escola que se preze.

Na constituição federal de 1988, no título I, dos direitos fundamentais, no artigo 3º diz que são objetivos fundamentais da república federativa do Brasil: a) construir uma sociedade livre, justa e solidária; b) promover o bem de todos, sem preconceito de origem, raça, sexo, cor, idade ou quaisquer outras formas de discriminação. Na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de 1996, tem um capítulo inteiro dedicado à educação para a diversidade como tema transversal, ou seja, um tema que deve ser tratado em todas as disciplinas. Isso quer dizer que a escola pública brasileira (e quando falo em pública falo também da rede privada porque todas as escolas lidam com o público e todas estão sujeitas às mesmas leis), pautada na legislação, tem como dever ético reforçar os laços de solidariedade, sem jamais estimular a violência, a humilhação e a segregação. Isso é lei. Está escrito no acordo máximo que o estado brasileiro tem com o povo. Precisa ser cumprido.

Em tempos de eleição e em tempos em que um candidato nega essa diversidade, ao afirmar que as mulheres devem receber salários menores porque engravidam, que ter filhas mulheres é sinônimo de uma “fraquejada”, este candidato explicitamente nega o princípio constitucional da igualdade de direitos. Ao chamar mulheres de “vagabunda” e “burra” e dizer que não estupraria uma deputada porque ela é “feia”, não é necessário estender-se nas explicações para saber do pensamento dele em relação às mulheres. Ao dizer que é favorável à ditadura e que a ditadura brasileira falhou porque deveria ter matado mais, nega o estado democrático de direito, que é o horizonte de qualquer sociedade civilizada. Ao querer armar a população, prega a justiça com as próprias mãos, prática adotada por sociedades bárbaras. Ao dizer que se tivesse um filho gay preferiria que ele estivesse morto, nega a diversidade de gênero. Ao dizer que seu filho foi bem-educado o suficiente para não se envolver com uma mulher negra, reafirma, descaradamente, o seu racismo, além de negar toda a história da escravidão no Brasil, ao dizer que os negros se voluntariaram ao trabalho forçado. Ou seja, esse candidato revela um atraso intelectual preocupante. Para os indígenas, que ele considera indolentes, ele já declarou que não demarcará “um centímetro” de terras.

Jair Messias Bolsonaro não tem uma única proposta razoável para a educação, a não ser a sua preocupação manifesta contra a doutrinação comunista e contra o que os desinformados chamam de “ideologia de gênero”. Aliás, ele demonstra uma preocupação exagerada, que renderia interessantes análises psicanalíticas, a respeito do chamado kit gay. Para evitar que os professores contaminem as crianças e os jovens brasileiros, ele propõe a educação a distância, ainda na educação básica. Ele também advoga a favor de as famílias não serem mais obrigadas a mandarem os filhos e as filhas para a escola, podendo educá-los/as em casa. Jair Bolsonaro não entende a “tara” dos brasileiros por um diploma superior, deve ser porque ele mesmo não conseguiu letrar-se em conhecimentos mínimos durante a sua formação.

Professores formados em universidades sérias, além de sólidos conhecimentos na sua área, também sabem de suas obrigações morais e éticas em uma sala de aula; é da nossa profissionalidade. Ou seja, os professores e as professoras têm o compromisso de zelar por tudo o que a teoria da área, cientificamente informada, acumulou em séculos de estudos, pois negar a ciência seria advogar pelo obscurantismo e pela ignorância, como é o caso de negar que houve ditadura no Brasil. Além disso, também têm o compromisso de observar os preceitos universais de uma educação libertadora e emancipatória, a saber, educar para a solidariedade, a diversidade, o respeito, a justiça, a liberdade. Isso tudo vem no pacote da formação de um professor e de uma professora, além de, como exposto acima, estar previsto na lei vigente do país. Por isso tudo, é dever moral, ético e profissional dos professores e das professoras posicionar-se contra tudo o que afronta os direitos da pessoa humana, assim como é dever lutar pela educação do país e não entregá-la aos desmandos de alguém declaradamente incapaz, preconceituoso, autoritário e intelectualmente prejudicado. Temos essa obrigação porque fizemos um juramento no dia em que nos graduamos. Quanto aos professores e professoras que apoiam Bolsonaro, fico me perguntando como acomodam tantos disparates ao paradigma ético pessoal e como equacionam tantas falácias ao quadro teórico de sua respectiva área.  Pela racionalidade, princípio tão caro à nossa formação, é que não é.

Mariléia Sell é Professora Doutora dos Cursos de Letras e Comunicação da Unisinos

Autora

Mariléia Sell

Publicidade

conexão

2016 - Todos os direitos Reservados