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Por mais Lolas peludas: um manifesto feminista – Crônica de Mariléia Sell

04 de janeiro, 2018 às 08:15 - por Mariléia Sell

Em janeiro de 2017 as bases deste mundo pós-moderno ameaçaram colapsar quando a atriz britânica Lola Kirke atravessou o tapete vermelho com pelos nas axilas, na cerimônia do Globo de Ouro, em Los Angeles. Sim, teve a audácia de aparecer peluda, sequer teve a consideração de se preocupar com os olhos mais sensíveis grudados na tela. Não se ocupou em passar uma lâmina e, assim, manter a paz mundial. Custava? Não, não custava nada. Tem pessoas que vêm ao mundo para tirar o sossego alheio mesmo, assim, despudoradamente.

Pois não é que a dose se repete em janeiro de 2018? (o ano promete continuar uma bagunça!). Apesar de muitas pessoas honestamente preocupadas com a estética feminina terem desejado a morte da Kirke, outra Lola insiste em chocar (essas Lolas são muito abusadas mesmo!). A Lola de agora é a filha da cantora Madonna. A mãe, ícone máximo da perversão, como já sabemos, postou uma foto com a filha ostentando pelos pretos no sovaco, perturbadoramente contrastantes com a pele muito branca da jovem. Milhares de pessoas conectadas à internet e realmente envolvidas com a ordem moral mundial manifestaram a sua opinião sobre essa afronta. Novamente a paz mundial está ameaçada e mal o ano começou. Custava essas mulheres simplesmente manterem um corpo viável? Um corpo que não chocasse ninguém? Agora deram pra isso: não pintam mais o cabelo, não se preocupam mais com as celulites, com as gorduras, com as rugas e, nojo dos nojos, com os pelos. A sociedade pode muito bem suportar a fome e as ameaças nucleares, mas daí a pedir que se acostume com mulheres peludas já é demais! Pra tudo tem limites!

O corpo da mulher sempre foi alvo de discursos normativos para se encaixar nos moldes de uma feminilidade possível. A mulher aprende, desde sempre, que ela vale pela sua aparência e não pelo seu cérebro. O maior capital da mulher é o seu corpo, um corpo lindo, de boneca, quase irreal. Não é à toa que em sociedades machistas, marcadamente como a brasileira, as mulheres ainda têm pânico de envelhecerem. Assim como a beleza, também a juventude é desejável, para sempre! As mulheres brasileiras, por exemplo, são as maiores consumidoras, juntamente com as norte americanas, de cirurgias plásticas. Esse corpo que obedece aos dispositivos culturais de gênero é, na verdade, um corpo violentado, um corpo torturado, um corpo odiado. A verdade é que o corpo da mulher é odiado, sim, muito odiado.

O que se espera da mulher é que ela tenha um corpo obediente, que ela seja obediente. Que ela se ocupe a vida inteira em agradar, que jamais desafie os padrões estéticos. Corpos obedientes são corpos ajustados, corpos que aceitam as tecnologias de gênero, corpos alijados de sua singularidade, corpos exaustos para atingir o inatingível. Sim, inatingível, porque os olhares estetizados pela mídia exigem uma beleza única, uma beleza impossível.

Atitudes como a das Lolas são uma afronta sem precedentes. Como podem, do alto de sua beleza, ostentar pelos. Esfregar na cara da sociedade que elas é que mandam no seu próprio corpo e que estão pouco se lixando para a repulsa alheia? É muita petulância, admitamos.

Aproveitando a desobediência de Lola no dia inaugural de 2018, desejo que neste ano novo brotem Lolas por todos os lados. As Lolas nos ajudam a ver que somos as donas dos nossos corpos. Que somos nós a decidir se queremos nos depilar ou não. Lolas são essenciais para os feminismos. Lolas assumem o corpo como o locus da sua própria revolução. Seus corpos resistem à captura discursiva de estereótipos de gênero. Seus corpos são subversivamente políticos. Um viva às Lolas!

Mariléia Sell é Professora Doutora dos Cursos de Letras e Comunicação da Unisinos e Secretária Adjunta de Educação de São Leopoldo

 

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