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Pinhão por litro (ou: isso não é um Pinhão) – Crônica de Daniel Mittmann

09 de junho, 2018 às 21:02 - por Daniel Mittmann

 “O açougueiro diz: alimento os homens, sou o pastor dos homens.”

Deleuze, em O Abcdário

Quando “morei” por alguns meses em Buenos Aires, na Argentina, me dei conta que uma coisa, entre outras, me fazia brasileiro. Por mais que muitas vezes não era o sentimento (brasilidade) que mais me animava. Afinal, “foi o 20 de setembro” e, como gaúchos do Rio Grande somos um pouco educados a olharmos mais para nosso estado do que nosso país.

Mas, fora do país, e por ventura fora do estado, uma coisa começava a rarear. E me fazia falta: era o feijão, grão quase que de existência clandestina no país vizinho. Assim começava a ficar claro – aparentar – que o feijão poderia ser o (um) ponto de união em nosso país continental.

Nos últimos anos morando, partes, meses, entre o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e o Paraná a pergunta que venho me fazendo é a que segue: o que nos une – ou nos faz sulistas – nesses territórios tão distintos e tão iguais que são os estados do sul brasileiro.

Como leopoldense em algum momento, pelos meses que havia passado por entre cidades catarinenses, cheguei a me perguntar se seria a cuca (iguaria que todo capilé sabe bem apreciar). Com todas as suas variações de formas e de sabores entre a bela e Santa Catarina e o nosso, hoje, apequenado Rio Grande do Sul é bem comum, não em todas as partes destes estados.

É claro. Cabe aventar que a erva-mate é capaz que seja. Menos ou mais, problemas a parte eis que hoje (passando uma temporada entre as frias Curitiba e Ponta Grossa) parece que o pinhão pode ser esse nó – ou melhor: essa semente – em comum entre os três estados já aqui citados. Mas o que ainda não tinha visto nos dois estados mais ao sul (e o que vou me deter) é a venda de pinhão por litro. Cresci comendo dessa semente de araucária, entretanto pelo que sei sempre foi comprado por quilo.

Caminhando por ruas da capital paranaense, Curitiba, e da interiorana (e sempre motivo de piada) Ponta Grossa é muito comum encontrar pessoas vendendo o alimento (simbolo do estado do Paraná) e tendo sua banca adornada por placas anunciando o valor do mesmo. Por exemplo: quatro reais um litro de pinhão e ou dez reais três litros. Para averiguar sobre tal forma, e ara este aimoresista que escreve nova, de venda, joguei a monta na lacuna de buscas do Google. De cara o primeiro resultado já dá conta de que “o pinhão cozido e quentinho parece combinar com o frio paranaense.” Frase que dava inicio ao texto, em importante jornal de CWB, sobre a saga de uma vendedora que “percorre oito quilômetros a pé para vender o litro do pinhão por R$ 1,50” (matéria de 2010). Labuta danada essa para vender o alimento que pode ser ou não marca de uma grande região brasileira. Será o pinhão – por quilo e ou por litro – o que marca a alma do sulista brasileiro? A saber que por fim ser do sul, do norte, do leste, do oeste, de cima ou de baixo, não é o que importa. Por regra, como aponta o filósofo francês Gilles Deleuze, toda territorialização é uma desterritorialização.

Daniel Mittmann é Filósofo, Sociólogo, Mestre em Educação, autor do livro “O Sujeito-Pixador”, músico experimental e membro fundador do grupo Macedusss & Banda. Atualmente vive entre Curitiba e Ponta Grossa, no Paraná.

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