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Percepções, ou comparações desdobradas, de um capilé em Curitiba – Crônica de Daniel Mittmann

01 de junho, 2018 às 15:57 - por Daniel Mittmann

Por uma ironia do destino, que nunca é um por acaso, sou – ou fui – recém chegado em
Curitiba justo no período em que a terra das araucárias se tornava um dos principais centros da
política nacional. Não é preciso mencionar sobre a prisão do ex-presidente Lula. Informação que
todos já estão mais que sabendo. Nem que as principais figuras do Partido dos Trabalhadores estão
(ou estavam: uma vez que a greve dos caminhoneiros mudou por completo o foco político do país)
pela capital do Paraná, entre eles muitos gaúchos. Mas, talvez o que muitos dos meus conterrâneos
capilés não saibam é como é essa, a todo instante propalada, cidade de Curitiba.

A ideia inicial desse leopoldense e aimoresista que escreve é comentar um pouco mais sobre
a cidade onde hoje vive, encarcerado, o já citado líder petista e por duas vezes ex-presidente do
nosso conturbado país. Entendo que comentar é comparar e que olhar para Curitiba é também olhar
para (dentro de) São Leopoldo. O movimento de pensamento que buscamos é dobrar Curitiba e
desdobrar São Leopoldo (ou vice-versa), não em meras comparações, mas mapa sobre mapa, para
calcular o que é pensar uma cidade em si e a partir de outra (que em algum momento foi, ou é,
referência).

Curitiba que por muito tempo foi parâmetro no quesito transporte público é ainda hoje
cortada por suas “canaletas”, como chamam aqui os corredores de ônibus, e tem na sua paisagem o
desenho das “estações tubo” (que parecem grandes garrafas plásticas com pessoas dentro). Estas
estações, ou esses tubos, não passam despercebidas para quem chega na cidade pela primeira vez.
Além do que não passa batido aos olhos a relação da cidade com a Lava Jato. Basta caminhar pelas
ruas do centro para observar adesivos de “eu apoio a Lava Jato” colado em diversos modelos de
carros, geralmente nos mais caros. Além do que o grande número de bandeiras do Brasil balançando
por janelas e sacadas de apartamentos do centro. Isso tem uma razão.

Ao caminhar pelo charmoso calçadão da Rua XV de Novembro o passante, além de
observar diversos moradores de rua e pedintes variados, contradizendo ao discurso recorrente de ser
aqui uma mine-Europa (algo similar com partes do Vale dos Sinos?), vai encontrar exposto nas
vitrines de lojas de turistas camisetas com estampas em homenagem a Operação Lava Jato e
também ao Juiz Sérgio Moro. A mais corrente é a celebre frase de “Aqui é a República de Curitiba”.

O que aconteceu no Brasil para que a cidade de Leminski, o poeta transloucado e amante do
grafite, do controverso Oil Man (o Homem Óleo), o super-herói peladão de CWB (sigla para a
capital do PR), do vampiro recluso do escritor Dalton Trevisan, da atual funkeira MC Mayara, se
transformasse numa República, quase a parte da Curitiba do mundo da literatura, de lulistas e
antilulistas.

Para começar nossa deriva por essa estranha e cindida terra de atletibas (nome do clássico
entre os dois maiores times de CWB). Dividida hoje, sobretudo, entre manifestações diárias em prol
e contra o líder petista. Nada mais apropriado que irmos até o Youtube e buscar pela banda local
Maxixe Machine. Estranho filho curitibano essa é uma banda punk que resolveu começar a fazer
samba, ou melhor: um quase pagode. Vamos buscar pela música que tem seu nome emprestado da
cidade: “Curitiba”.

Durante os próximos escritos nessa coluna vamos seguir tentando desvendar detalhes,
sempre com o atento olhar índio-colono-capilé, dessa nova quase capital brasileira (em devir
conservador). Pois, como afirmou Leminski, parece que sabendo do que viria a viver a sua Curitiba,
“haja hoje para tanto ontem”.

Daniel Mittmann é Filósofo, sociólogo, mestre em educação, autor do livro “O Sujeito-Pixador”,
músico experimental e membro fundador do grupo Macedusss & Banda e Atualmente vive em Curitiba, PR

 

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