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OS ADVOGADOS DE DEUS – Crônica de João Eichbaum

14 de setembro, 2018 às 17:08 - por João Eichbaum

 

O primeiro chute no traseiro, desde que o mundo é mundo, quem recebeu foram Adão e Eva, os robozinhos de carne criados por Deus. Depois das fofocas de comadres que, numa esplendorosa tarde no paraíso, a serpente e a Eva trocaram, imaginem o que aconteceu. Eva não só comeu uma maçã proibida por Deus, como deu pro Adão. E aí rolou o pecado original.

Foi então que Javé, o deus judaico-cristão, teve o primeiro surto de fúria no calendário da eternidade. Não quis saber de explicação. Decisivo, porque não tinha segunda instância, fuzilante, berrou: “sumam daqui, acabou o bolsa-família, chega, vão se virar, vão se fu…ops, vão se multiplicar, parindo bebês para encher o mundo”.

Foi o primeiro surto de raiva e vingança. Outros se seguiram depois: mandou um dilúvio para afogar o mundo, botou fogo com enxofre em Sodoma e Gomorra, porque a turma só pensava em transar, dividiu o mar vermelho para afogar os egípcios, deu a maior força para David matar Golias, criou as fogueiras da Inquisição, e por aí foi, matando e mandando matar.

Até que chegou a vez do Bolsonaro. Para isso ele escolheu a dedo um sujeito chamado Adélio Bispo, pobre, sem teto, sem terra, sem profissão, sem mulher, desempregado, mas com cartão de crédito internacional: “vai lá e termina com a pele desse cara”.

Mas, o Adélio não conseguiu dar conta do recado. Preso, depois de ter esfaqueado Bolsonaro, entregou o mandante: “foi Deus”. Ora, com um réu de tal porte, outra coisa não se poderia esperar. Assim que Adélio abriu o bico, surgiram quatro advogados do nada, assim como do nada surgiu o mundo criado por Javé. Senhores bem vestidos, de conversa fluente, engravatados, prestando assistência VIP ao mercenário de Deus, coisa que nem Jesus Cristo teve, para se defender perante Pilatos.

Até hoje, em toda a história judiciária do Brasil, tal não havia acontecido. Há milhares de pobres, tratados como animais irracionais nos presídios pestilentos, a quem Deus não socorre, nem com a graça de advogados de porta de cadeia.

Mas Adélio é um privilegiado. Foi escolhido porque tem recheio psicológico e é dotado de enorme senso artístico. Enroscado na ideia de que cumpre missão divina, se sente numa trincheira. Só que, pelo sim, pelo não, para lhe fechar a boca, Deus providenciou advogados de alto coturno, pagando-os com a única moeda que é reconhecida no sistema financeiro da eternidade, não entra nas contas da Receita Federal, nem deixa rastro para a polícia: o dízimo.

 

Autor

João Eichbaum

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