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O que “Só surubinha de leve” diz sobre nós? – Crônica de Mariléia Sell

19 de janeiro, 2018 às 12:03 - por Mariléia Sell

Dizer que a cultura brasileira é machista é insistir no óbvio ululante, para usar uma expressão de Nelson Rodrigues. Embora todos se horrorizem com a possibilidade de serem tachados de machistas e misógenos, porque, afinal de contas, isso vai contra o politicamente correto, não é preciso cavocar muito para descobrir como pensam milhões de brasileiros e brasileiras sobre as questões de gênero, basta ver que tipo de produtos culturais consomem diariamente, sem nenhum estranhamento. E antes que venham dizer que músicas como o funk “Só surubinha de leve”, do  MC Diguinho, não são cultura, lamento informar que são cultura, sim. Por mais incômodo que seja, é importante lembrar, antes de começar essa conversa, que cultura é todo o repertório simbólico de um povo, todo o conjunto de comportamentos e de práticas sociais que compartilhamos. Os produtos (as artes) que daí derivam, são, portanto, enxarcados dessa realidade, nada surge de um vácuo, de um hiato histórico, tudo é culturalmente informado. Ou seja, os produtos culturais refletem quem somos enquanto povo, enquanto sociedade, e isso não é necessaraimente algo belo, algo construtivo, algo de que devamos nos orgulhar. Nossas músicas refletem nossa incômoda imagem no espelho. Quanto mais estranheza essa imagem no espelho nos causar, mais estaremos preparados para romper com algumas concepções cristalizadas sobre o que é ser homem e o que é ser mulher no Brasil e no mundo.

Agora, se você consome letras que ‘convidam’ as “filhas da puta” para uma “surubinha de leve”, para “tacar bebida, tacar a pica e depois abandonar na rua”, ou se você não vê problema nenhum em rebolar o “popozão” até o chão ao som de MC Denny, que chama a “novinha safadinha para perder a virgindade” e ainda diz que “vai socar na buceta sem parar e mesmo se pedir pra parar, não vai”, aí você me causa constrangimento. Se você faz coro com MC João, quando ele vocifera que “não está entendendo; que mexeu cm r7 vai voltar vom a xota ardendo”, torço para não cruzar com você nas ruas, porque você me dá medo.

Não fosse todo esse ataque sexual às mulheres (e não venham os especialistas dizer que não se trata de apologia ao estupro), ainda o nosso repertório musical deixa claro o lugar social que elas devem ocupar. Isto fica bem elucidado no famoso samba de roda em que o sambista diz que se essa mulher fosse dele “ tirava do samba já já e dava uma surra nela”, pois lugar de mulher todos sabem qual é. Se restarem dúvidas sobre esse lugar, o grupo Vou pro Sereno explica melhor: “com tanta roupa suja em casa, você vem atrás de mim. Mulher foi feita para o tanque, homem para o botequim”.

Como a vida imita a arte (ou seria o contrário?), as músicas vêm recheadas de exemplos sobre como “educar” uma mulher. Mas estamos só falando de um tapinha e “só um tapinha não dói”, não é mesmo? Mas, quando a mulher se torna “indigesta”, isuportavelmente indigesta, aí sim, ela merece “um tijolo na testa”, já cantava Noel Rosa. Já a  “piranha”, a “puta” que engana um homem “merece ser presa na colônia, orelha cortada, cabeça raspada, carregando pedra pra tomar vergonha na cara”, alerta Bezerra da Silva. Ao som de gaitas e foles, o Tchê Garotos, ícone da nossa intocada cultura gauchesca, também lembra as mulheres, caso elas façam ouvidos moucos, de que elas devem obediência: “Quanto mais eu passo o laço, muito mais ela me adora. O laço é um santo “remédio”, pois “ela faz o que eu quiser; lava roupa, lava prato”. E não adianta as mulheres terem repentes de emancipação, quererem bancar as feministas progressistas. Elton Saldanha vai avisando as aventureiras: “E se a china for embora, faço voltar à laço”. Se sonhar alto, “à procura de carro, à procura de dinheiro”, Gabriel, o Pensador vai logo relembrando o lugar dessas “cadelas”: “ era mesmo num puteiro”.

Além de tudo, a mulher precisa ser bela. Se cometer a deselegância de ser feia, será escrotizada nas canções que embalam os brasileiros: “ela de 4 fica maravilhosa, na 3 x 4, é horrorosa”, cantam Os Raimundos. Mas, no fundo no fundo, não importa se a mulher é “banguela, fedida, fudida”, ela “tem o que a gente quer”, escancara a banda de rock Velhas Virgens.

Retirar músicas como a do MC Diguinho do catálogo do Spotify, plataforma em que alcançou um sucesso viral, ou retirar do You Tube, onde teve 14 milhões de acessos, não basta para mudar a cultura de coisificação da mulher. Para mudar essa cultura e essa estética da brutalidade é preciso começar a problematizar os produtos que surgem nas diferentes mídias todos os dias, é preciso problematizar a nossa imagem no espelho. As mulheres precisam entender que são vítimas, todas elas, quando são representadas de forma tão grotesca no cancioneiro nacional. Precisam também parar de se enxergar como “inimigas”, se tratar como “recalcadas”, “invejosas”, sempre prontas para “bater de frente e dar tiro, porrada e bomba”.

Mariléia Sell é Professora Doutora dos Cursos de Letras e Comunicação da Unisinos e Secretária Adjunta de Educação de São Leopoldo

 

 

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