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O noise hoje é o novo pop ou como pode São Leopoldo ser uma boa síntese do Brasil? – Artigo de Daniel Mittmann

27 de agosto, 2018 às 09:48 - por Daniel Mittmann

O noise hoje é o novo pop! Tanto é assim que quase tudo que é artista tem usado – mais esteticamente que eticamente – um pedalzinho de distorção. Gostam de colocar uns barulhos no meio da música (mas nada muito radical, para não assustar). Assim como existe um tipo de noise playboy. De noise gourmet (a gente é obrigado a falar as coisas em inglês, isso é um saco também: diríamos então um barulho-burocracia). Ano passado tocamos em um lugar em SP que é especializado em noise e experimental (vê se pode isso?). Os caras querem fazer do noise algo acadêmico, é deprimente. Gente que estuda “noise”… Oi? Sim, uma bobagem de playboy. Por pura alegria MACEDUSSS & Bando resolveu apenas tocar um cover infinito – em fluxo – de Legião Urbana. Claro que falamos coisas contrárias que queriam ouvir. Claro que não gostaram da gente, e isso é bem melhor para MACEDUSSS. Hoje, para a ideia e a política de MACEDUSSS, o lixo é mais importante que o noise. O lixo é o novo pixo!

Penso que sim e não, ao mesmo tempo. O Dub ainda é um subgênero pouco conhecido fora do nicho da música. Em SP, onde vivi um bom tempo, ele é bem ligado a periferia. Já no RJ, ou vivi um tempo bem menor, ele é bem presente na classe média, na zona sul. Entendo que a potencia do Dub mora na proposta política da aparelhagem e é ai que MACEDUSSS se inspira (além da estética escaleta do verão eterno, claro). De levar umas caixas de som para a rua, para o espaço público, e falar, fazer a galera dançar. O bando, ou o projeto, MACEDUSSS é isso. Fizemos apresentações assim, na rua, em lugares bem variados como Piracicaba (SP), Buenos Aires, Asunción-Paraguay, em Brasilia, Curitiba e claro, entre outras, na nossa afamada São Leopoldo. Tudo muito bem documentado e jogado na internet. Basta uma simples pesquisa que se encontra fotos e vídeos. Afinal: MACEDUSSS é um vírus. MACEDUSSS é um vírus!

Quando eu falo em São Leopoldo, é estranho, sei que me refiro a uma camada de cidade que nem deve ser a “mais real”. Como vivo há anos entre temporadas na cidade e longos períodos fora, me alimento da memória e do contato íntimo com os amigos e a família que seguem em terras capilé. Mas toda cidade é um pouco isso: uma guerra de entendimentos e de códigos. Para MACEDUSSS São Hell é única pelo simples fato do projeto ter nascido em um bairro de sua periferia no ano de 1992 (a ideia), em uma rua de terra. Eu sou São Leopoldo. Eu sou o Aimoré, eu sou o Rio dos Sinos. Nossa cidade tem uma coisa que poucas tem, isso é verdade, uma rua para ser chamada de principal. Para caminharmos tranquilamente. O centro de SL é realmente um lugar mágico. É, ainda, um bom espaço para perambular, para encontros e desencontros. SL é uma cidade negra, uma cidade com forte presença cultural das religiões afro-brasileiras. Algo que nos anima bastante. Lembro de crescer ao som do atabaque. Isso, essa musicalidade, é o que Macedusss quer para si. Mais do que dub: somos atabaque! SL é uma cidade muito ligada ao carnaval, ao futebol de várzea. Na realidade SL é uma boa síntese do Brasil. MACEDUSSS é o Brasil.

A norma é um princípio de comparação. O normal, dentro da norma, está inscrito entre as “artes de julgar”. Isso é político. Por outro lado é também, o contrário, um movimento engraçado. É comédia. Pois quando se faz algo que não é normal. Mesmo que não seja nada demais, mas se cria alguma coisa, mesmo que seja anormal dentro dos anormais (normal?), se faz um ruído. E todos param para “olhar”. É uma dobra (opa: tem alguém fazendo algo e eu preciso entender). Parece que existe uma angústia de entendimento. Todos querem saber sobre – entender – MACEDUSSS. Mesmo que o slogan seja: “MACEDUSSS uma banda de impossível compreensão”. As pessoas quebram e fritam a cabeça pois querem entender. Nesse movimento é incrível como aparece gente interessada. Mas mais importante que sermos todos grupos, grupelhos, panelinhas é gerar algum desconforto intelectual, estético e político. MACEDUSSS é signatário em demasia do Didi Moco (de sua primeira fase teórica-intelectual-comédia). Na verdade MACEDUSSS é uma espécie de “Os Trapalhões” da sarjeta, dos pobres.

O dadaísmo, para mim, em termos de ideia de arte é passado. É ultra-passado. Mas o concretismo, como forma e principalmente enquanto arquitetura e urbanismo, é, hoje, bastante popular. Em algumas cidades mais que outras. A nossa São Léo é bastante concreta! Na medida que é, mesmo que não seja moderna, bastante modernista. Explico. Tem ligação com uma pergunta, anterior, sua. SL é bastante provinciana, tradicional. Em termos de costumes, muitas vezes, parece que parou no tempo (mesmo que seja banal falar isso). Mas em termos formais (por isso concretismo) SL é muito moderna (nista). É só caminharmos pelo centro. Nossa cidade é repleta de construções monumentais. O conjunto, por exemplo, dos três prédios redondos é ímpar! Marca todo e qualquer capilé. Pela Rua Grande encontramos prédios como o Agrimer (o Copan de SL), prédios como os do BB, do Banrisul, aquele colégio estadual que fica na esquina democrática capilé, entre outros, são exemplos fortes do modernismo em nossa cidade-colona. O próprio trocadilho: “São Léo, São Hell” é bastante envolto em um concretismo vileiro. A rodoviária, aquele prédio acanhado e hoje engolido pela parte nova (horrível, por sinal), é brutalmente modernista. Dotada de um vitral, se despedaçando é verdade, que parece uma pintura do modernismo comunista russo. SL, assim como outra cidade qualquer, é incrível. É recheada de particularidades (camadas sobrepostas por outras camadas de distintas histórias). É preciso caminhar mais. É preciso estar a pé, ligado organicamente a cidade, para observar essas coisas. Quem anda de carro o tempo todo, quem vive a cidade de forma rodoviarista (“no céu os aviões e nos pés os caminhões”) não vai dar valor para a cidade que vive. Quem caminha a pé pode até sentir o cheiro-fedor do rio dos sinos (que é uma beleza em si).

Daniel Mittmann é Filósofo

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