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O inferno está cheio de comunistas – Crônica de Mariléia Sell

03 de outubro, 2018 às 14:05 - por Mariléia Sell

Por uma dessas coincidências da vida, duas Flávias me escreveram nesta semana. Ainda mais incrível do que o fato de serem duas Flávias é que as duas têm o mesmo sobrenome. Entendi como um sinal do universo. E sinais a gente não ignora. Não é auspicioso! Isso tem acontecido com uma certa frequência;  pessoas escrevem pedindo que eu conte as suas histórias. Generosamente, abrem seus corações e depositam toda a confiança em mim para que se vejam representadas em narrativas legitimadas. De gerações passadas, a família das duas Flávias constituiu-se nos dogmas de igrejas evangélicas neopentecostais. Contudo, a primeira Flávia está muito preocupada com os discursos de ódio contra gays nesta época de eleições nacionais: sua filha é lésbica. “Ela é a criatura mais pacífica que existe: ela é tão amorosa que é vegana porque não aceita a matança de bichos”, diz. Essa mãe não quer um país que discrimine gays, que ache que eles/as devam receber corretivos para curar-se. Essa mãe quer deseperadamente um país em que a sua filha, tão pacífica, tão do bem, tão amada, seja acolhida, seja respeitada, não seja agredida e nem morta. Sua filha é o que ela tem de mais precioso no mundo. Essa mãe não entende porque os pastores de sua igreja, declaradamente cristãos,  apoiam um candidato que incita o ódio contra gays. Que defende a tortura. Que prega o armamento de uma população cada vez mais cega pela intolerância. Que defende o “atire a pedra”, tão contrário ao que Jesus pregava.

A segunda Flávia quer narrar a sua história como uma forma de fazer justiça a sua bisavó e a sua avó. Sim, contar histórias tem esse poder de devolver a dignidade roubada das pessoas, de pessoas que nunca foram autorizadas a contar a sua própria história. Pessoas que sempre foram narradas pelos outros. Os homens, normalmente. Homens da igreja. Homens de Deus. Homens que adquiriram o direito natural de mediar a palavra de Deus para os  crentes. Os representantes legítimos de Deus na terra. Ambas, bisavó e avó,  são dissidentes de uma religião neopentecostal que prega que a mulher vale menos que o homem. Que a mulher não tem qualificação suficiente perante Deus para celebrar rituais sagrados, como casamentos e funerais. Que a mulher não pode usar as roupas e os acessórios de sua escolha. Que a  mulher não pode colorir-se em maquiagens. Que a mulher está sempre sob a tutela de um homem. Que a mulher não decide por ela mesma, precisa de autorização. Que a mulher precisa ter a sua sexualidade vigiada porque é naturalmente inclinada ao pecado e à tentação. Assim como a fraca da Eva, nossa ancestral. Ambas, bisavó e avó, apanhavam dos maridos, receberam ameaças de morte porque não obedeciam as regras da igreja. A bisavó era a criatura mais doce e pacífica desse mundo, conta a bisneta, emocionada. “Até os passarinhos vinham sentar nela”.

A segunda Flávia tinha por hábito questionar os pastores sobre algumas pregações contra os que defendiam a distribuição de renda. “São comunistas”, diziam eles. Esses mesmos comunistas que fechariam igrejas e que destruiriam a família. Os comunistas que defendem a “ideologia de gênero” e apoiam a pedofilia. Flávia também questionava o tratamento diferenciado dispensado a mulheres separadas e mães solteiras. Ela questionava o discurso que ameaça com o inferno e com o diabo qualquer pessoa que ousasse contrariar as normas, ou a palavra do pastor. Flávia procurou um pastor de sua confiança para relatar o seu medo perante os rumos do país, especialmente porque muitos pastores abriram o seu voto ao candidato Jair Bolsonaro. Ela estava seriamente preocupada porque não conseguia estabelecer nenhuma relação da palavra de Jesus, que lia desde os 10 anos de idade, com as ideias defendidas por este candidato. Ela perguntou a este pastor, que sempre lhe parecera consciente, porque tantos irmãos e irmãs defendiam algo que jamais seria defendido por Jesus. Após ouvi-la atentamente, o pastou sentenciou, com a voz benevolente daqueles que sabem o que dizem, dos autorizados por Deus: “ igreja não se mete com política”. Disse também que os comunistas vão para o inferno e arrematou: “o diabo é ardiloso para enganar os fieis com discursos sedutores”, irmã.

Flávia sentiu-se mais uma vez enganada pela igreja, assim como a avó e a bisavó. Parecia sina das mulheres da família não encontrar guarida na palavra de Deus, não encontrar amparo, não ter espaço. Ela não sabe se os pastores fazem o que fazem por medo de perder os fiéis e, consequentemente, o seu poder, ou se fazem isso por ignorância mesmo. Se for por ganância pelo poder, é uma atitude que está em franca discordância com o que Jesus pregava, acredita Flávia. “Seria como aproveitar-se da ignorância alheia para manipular e dominar”. Se for por  ignorância, continua sendo maldade, reflete ela, porque, como dizia o poeta Renato Russo,  a “ignorância é vizinha da maldade”.

Defender o indefensável em enome de Cristo  é, no mínimo, indecente. O poder, como sabemos, é disputado via discurso. E o discurso simplista, reducionista, quase infantil, tem um apelo forte entre os que precisam de um salvador, de um messias, de um pai todo poderoso, de um chefe, de um comandante para restabelecer magicamente a ordem perdida, ou o paraíso prometido. E não há necessidade de pensamentos lógicos, teoricamente embasados, para essa defesa, estamos falando de pensamento mágico mítico, um estágio anterior ao desenvolvimento racional adulto.

Mariléia Sell é Professora Doutora dos Cursos de Letras e Comunicação da Unisinos

Autora

Mariléia Sell

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