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O CONHECIMENTO PASSA PELA BUNDA – CRÔNICA DE MARILÉIA SELL

24 de fevereiro, 2018 às 21:57 - por Mariléia Sell

Recentemente, um debate do show business brasileiro ganhou tamanha relevância que chegou a invadir terras estrangeiras. O tema era a bunda com celulites da funkeira Anitta: se ela (a bunda) contribuía, ou não, para a libertação das mulheres dos padrões corporais tão opressores. Os padrões, como já sabemos, pairam no campo do desejo nunca realizável, como no suplício de Tântalo. Provavelmente, não teremos uma tese absoluta sobre a bunda, digo, sobre essa escolha da cantora em não se fotoshopar, já que, para muitas feministas, persiste a questão da objetificação da mulher que monetariza o corpo. E antes que se critique esse ou aquele feminismo, é preciso que se diga que todos são necessários, muito necessários; a multiplicidade de abordagens sobre qualquer fenômeno social reduz as chances de simplificar aquilo que é complexo na sua gênese.

Bem, se a bunda com celulites de Anitta finalmente nos emancipa ainda é cedo para saber, mas tem outra bunda que certamente tem esse efeito. Esse tipo é menos celebrado pela mídia, embora seja tão importante quanto a de Vai Malandra: trata-se da nossa bunda (provavelmente povoada de celulite). A bunda tem uma importância central para o desenvolvimento da nossa intelectualidade, não porque tenha neurônios especiais ou um cérebro escondido, mas porque tem um grande músculo que nos permite sentar.  Sim, sentar na cadeira e escutar. Em tempos de volta às aulas, renovam-se os objetivos elevados de aprender mais e de construir novos conhecimentos. O que está cada vez mais difícil, porém, é encontrar bundas nas cadeiras. Anda escassa também a capacidade de concentração para assuntos que ultrapassem, em complexidade, a previsão do tempo. Nos dias que correm, a relação mercadológica e utilitária que se estabelece com a educação, somada às distrações do mundo da informação, a ordem é ‘ganhar’ tempo, abreviar caminhos, fazer buscas rápidas. Essa regra aplica-se a tudo: desde a leitura do horóscopo até a apreensão de temas como segurança pública (em tempos de intervenção militar), racismo e ‘ideologia de gênero’. Com as modernas metodologias de aprendizagem, rapidamente o cidadão formula argumentos, estando, assim, pronto para disputar o imaginário do outro no acirrado mercado de ideias, especialmente no fórum das redes sociais.

Para motivar a busca do conhecimento e manter as bundas na cadeira, o professor, palestrante, formador precisa embalar o seu conteúdo de forma a torná-lo palatável, prazeroso e, de preferência, que seja ‘leve’, muito ‘leve’, algo quase flutuante. Espera-se, na verdade, que o professor não aborreça demais com ideias complexas e difíceis. Queremos relaxar, precisamos rir, queremos figurinha, nada de texto extenso, recheado de palavras e de conceitos difíceis. Precisamos de praticidade, porque, afinal de contas, são tantas as demandas a disputar a nossa atenção e a nossa energia. Gostamos do conhecimento compacto, pré-digerido, ao estilo gotas de sabedoria; lemos os resumos das obras, está tudo aí, para que perder tempo com detalhes desnecessários? Quando o assunto não nos interessa, aí desligamos mesmo, ou voltamos a mexer no celular. Para que alguém precisaria saber, por exemplo, sobre neoliberalismo e estado mínimo? Francamente, nossas mentes não aguentam tantos conhecimentos inúteis; os professores deveriam saber disso!

Para que não babemos na blusa, o professor precisa ser engraçado, precisa dar aulas dinâmicas. Aliás, as aulas deveriam ser shows, assim aguentaríamos melhor, não sentiríamos tédio e não levantaríamos da cadeira depois da primeira meia hora! Será que as universidades que formam professores nunca pensaram nisso? Pois deveriam! Se a didática dos professores envolvesse mais ludicidade, se fossem da ordem do entretenimento, tudo seria diferente, aposto! Aprender não pode doer, andamos sensíveis demais à dor! Também não pode promover maiores deslocamentos nas nossas crenças, gerando colapsos internos; não sabemos lidar com isso. Aprender precisa conciliar a percepção narcísica que temos sobre a nossa inteligência e a falta de tempo que temos para ficar com as nossas bundas na cadeira.

Mariléia Sell é Professora Doutora dos Cursos de Letras e Comunicação da Unisinos e Secretária Adjunta de Educação de São Leopoldo

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