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“Nunca Mais” – Artigo de Quênia Renee Strasburg

27 de fevereiro, 2018 às 13:20 - por Quênia Renee Strasburg

Lembro muito bem do slogan num museu que visitei em Washington, o qual estava escrito em toda parte: Never Again (Nunca Mais). Tratava-se do Museu Memorial do Holocausto, que pretende manter viva a memória das vítimas deste genocídio. A expressão criou o impacto desejado, ao menos em mim. A experiência de visitas a outros museus se repetiu em uma série de outras viagens, nas quais tive a oportunidade de ver, assistir e ler histórias dos horrores cometidos na Segunda Guerra Mundial. Entre os museus que contribuíram para minha coleção de experiências estão o Museu Judaico, o Centro Anne Frank, o Memorial do Holocausto, o Centro Topografia do Terror, o Memorial de Protesto das Mulheres em Berlim,  o Museu das Forças Armadas, ou Museu dos Inválidos, em Paris, a Sinagoga Pinkas e o Cemitério Judeu, em Praga, entre tantos outros. Naquele momento, o extermínio em massa tornou-se justificável pela “pretensa” supremacia de um ser humano sobre o outro.

Em outra visita recente, desta vez ao Museu da Memória e dos Direitos Humanos, no Chile, observei que novamente os horrores se repetiam, agora com outra justificativa: a política. No fundo, ao analista da história, ou a quem se dispõe a olhar com mais profundidade os fatos, chama a atenção que a repetição é um ato comum para a humanidade. Temos dificuldade de aprender com os erros dos outros ou com os nossos próprios. Apesar de termos muitos e variados exemplos dos resultados da intolerância e do discurso de ódio, a sensação de que a lição não foi aprendida volta a nos assombrar depois de um período em que, aparentemente, o Brasil e o mundo entrariam no século XXI sob uma aura de paz, diversidade e respeito as diferenças.

Em nosso país, infelizmente, não temos um museu da memória, o que talvez não nos permita lembrar que por nossas terras também ocorreram fatos extremamente vergonhosos, como torturas, desaparecimentos e centenas de valas com corpos, em período recente da nossa história, como o da ditadura militar. Essa falta da memória pode servir para muitos fins e um deles é esse apagamento do que não interessa tanto. Só assim para justificar que muitos ‘cidadãos de bem’ se levantem para defender a ditadura militar, com base apenas em argumentos de que “naquele tempo tudo era bom”, “não havia violência”, “a vida era tranquila”! Santa ingenuidade e falta de conhecimento, pois as provas materiais estão aí, só não sabe e não vê quem não quer!

Soma-se a toda essa falta de memória e de conhecimento uma máxima de que as instituições, sobretudo a escola, devem ser neutras, devem ensinar os dois lados. Será que só existem dois lados? A complexidade da vida e de tudo que existe se resume a lado A e lado B? Para aqueles que tem uma maior aproximação com o universo da ciência, a perspectiva da neutralidade ou da imparcialidade está relacionada às origens da ciência e do seu método. A expressão mais pura da neutralidade só poderia ser encontrada nas ciências naturais e na matemática, pela sua objetividade e rigor. Porém, desde o século XIX, a ciência tem operado sobre outras bases, o que possibilitou o surgimento das ciências sociais e humanas, quebrando ao meio essa perspectiva.

Neutralidade não existe! Neutralidade é mito, é história da carochinha, conversa pra boi dormir. Mesmo que muita gente acredite que possa existir uma aula ou um tema neutro, sinto informar: não é possível. Em lugar nenhum e sobre nenhum assunto. A própria escolha de quais conteúdos devem ser ensinados e quais não, já é uma ação desprovida de neutralidade.  Por isso, não há como existir uma escola sem partido, uma ciência neutra, uma justiça imparcial e uma política sem interesse público.

Aqui, neste ponto, imagino que muita gente já esteja me xingando, peço calma, claro que existem princípios, e o princípio que defendo, neste texto, é o da ética. E é a ética que faz com que um professor, em sala de aula, apesar de suas crenças, suas opções e suas visões de mundo, cumpra com sua tarefa de despertar o gosto pelo conhecimento, pela pesquisa, pelos livros, pela arte, pelo bem-estar físico, pela criatividade, pelo respeito às diferenças. E essa mesma ética deve ser balizadora das ações nos diversos setores da sociedade. Agora, quando a ética falta, não existe nada que possa resolver o problema, seja na escola, nas audiências, na rua, no supermercado, no trânsito, nos relacionamentos ou onde for.

A luz vermelha para a intolerância acende quando uma sociedade diz que livros são perigosos, que exposições de arte (que são locais de livre escolha) devem ser fechadas, que os professores devem ser perseguidos pelo que dizem, que temas importantes devem ser excluídos do currículo. E, novamente, me vem à cabeça a expressão “Nunca Mais” e reflito que um ajuste com a memória coletiva precisa ser fortalecido e não esquecido. Esse ajuste é um compromisso político e, acima de tudo, um compromisso pedagógico pela potência de aprendizagem que tem o conteúdo para a humanidade.

Quênia Renee Strasburg  é Doutoranda em Educação – Unisinos e Diretora Pedagógica da SMED – São Leopoldo.

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