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Nietzsche e a docilidade política do brasileiro – Artigo de Marcus Diesel

16 de junho, 2017 às 14:13 - por Marcus Diesel

Política é força. Política é, como muitos vaticinam, a continuidade da guerra. Ainda que
teorias das mais diversas matizes avaliem e analisem criticamente a teoria política, buscando uma interpretação mais branda no sentido bélico que historicamente lhe acompanha, a prática do dia a dia dá razão ao filósofo Friedrich Nietzsche, crítico de todos os sistemas de seu tempo e denunciante da filosofia política da modernidade – cujas bases teóricas ainda se mantém até hoje, sem perspectiva de mudanças a
curto prazo.
Um dos conceitos trabalhados pelo filósofo alemão é o da “pequena política”, termo
que explicita a confusão entre o nacionalismo, o imperialismo econômico ou militar e a identidade cultural a sustentar a “grandeza” de um povo, além de representar uma confusão ideológica entre a busca e o anseio da felicidade, por um lado, e a segurança, a comodidade e a ausência de dor, por outro.

Esse conceito resulta na produção, grosso modo, da figura do “último homem”, ou homem do rebanho, que se coloca numa autointerpretação no fim da história. Conforme a filosofia nietzschiana, fundamentalmente nas obras “Para Além do Bem e do Mal” e “Genealogia da Moral”, esse tipo de ser se coloca num patamar degradável tal que entende que o curso do mundo e da história resultam em sua figura e no
objetivo de sua felicidade, sendo sujeito de manifesta fraqueza moral, incapaz de suportar o sofrimento, pelo que se socorre da banalidade dos prazeres e do vazio dos confortos como um tipo de escudo ilusório e também ideal supremo de felicidade.
Nietzsche vislumbra a degradação da humanidade e seus instintos de rebanho como
consequências da moderna sociedade industrial, constatando a auto-mediocrização do homem, que inserido no âmago da democracia liberal e na pretensão teórica da racionalização global da sociedade, torna-se um ser mecânico, uma peça na engrenagem universal de “rodas sempre menores, mas finamenteadaptadas”. O produto de tal processo é um indivíduo adestrado, laborioso, adaptável, herdeiro do que chama de a “moral do escravo”, que se consubstancia, em suma, na moral da utilidade.

O apequenamento e prejuízo individual são carvão para o “otimismo econômico”, que busca retirar proveito geral do prejuízo de cada um. Nietzsche advertia, contudo, que ao contrário do ideal econômico então pujante, na verdade “os prejuízos de todos se somam num prejuízo global: o homem se torna menor”.
Pensando na perspectiva brasileira da história recente, fica difícil contrariar Nietzsche.
Mesmo que a antítese à figura do “último homem” proposta em seu conceito de “além-do-homem” (Übermensch) tenha sido deturpada e tenha justificado em parte, na visão de muitos, regimes de exceção nefastos, a síntese nietzschinana da política moderna se amolda com uma preocupante exatidão ao cenário da disputa pelo poder nacional. O embate de forças supera em muito a esperança de ascensão mínima da virtude, inclusive nas instituições. O que se vislumbra é o “otimismo” hipócrita do mercado ditando e justificando a estrutura do poder e suas decisões, contando com a conivência amorfa da população preocupada com suas pretensões ilusórias de felicidade em sua posição de “fim da história”.
O estupor do brasileiro em sua pequena política cotidiana, todavia, teve um rompante
que merece ser lembrado e repensado, a fim de que suas consequências não pereçam: as jornadas de junho de 2013, que levaram cerca de 24 milhões de brasileiros às ruas (cerca de 12% da população), num movimento inédito, que teve crescentes e distintas reivindicações, centradas no eixo da busca por direitos sociais (como transporte, edução e saúde) e no combate à corrupção. Todavia, no campo político, a
esquerda se arvorou como titular da luta pelos direitos sociais e a direita, paladina do combate à corrupção, cindindo o conteúdo de tal levante e gerando uma luta fatricida que favoreceu a velha classe política, como bem colocou o professor Pablo Ortellado, da USP, em artigo na Folha de São Paulo de 13/06 (“A negação de junho, quatro anos depois).
A classe política assentada nos partidos tradicionais reverteu a ameaça do movimento
popular vindo de baixo, do povo, de quem por definição constitucional, emana o poder e, por fomentar o embate ideológico mais rasteiro e polarizado, consegue se manter de pé mesmo com sua estrutura pútrida
revelada, pouco a pouco, e com a prisão de alguns de seus caciques. O Presidente da República é investigado no mesmo inquérito que ensejou a decretação da prisão preventiva de seu comparsa Rodrigo Rocha Loures, ex-deputado e seu ex-assessor, com a iminência de oferecimento da denúncia pelo Procurador-Geral da República contra si, o que permite concluir que, não fosse a blindagem jurídica do cargo, poderia estar atrás das grades, junto com Eduardo Cunha, seu escudeiro de outrora.

Está na hora das bandeiras de junho de 2013 renascerem (e mais fortes), a fim de que a sociedade civil se una para lutar pela implementação de pontos que, de fato, possui em comum, bem como para defenestrar as velhas estruturas, os velhos partidos e os velhos nomes do poder, deixando de contemplar as pastagens com a crença inocente que o otimismo econômico pode compensar a conivência com a manutenção do continuísmo pemedebista.

Marcus Diesel Marcus Diesel Servidor Público, bacharel em direito e mestre em Filosofia

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