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NEM TODOS SÃO IGUAIS – Crônica de João Eichbaum

03 de agosto, 2018 às 09:08 - por João Eichbaum

 

Ele veio das camadas inferiores: daquelas que sustentam a pirâmide social, daquelas onde não há privilégios, tipo auxílio-moradia, férias de sessenta dias. Filho de uma costureira e de um operário, Luiz Carlos Cancellier de Olivo, um homem de fala mansa, conciliador, superou as dificuldades que a vida pôs em seu caminho. Ao vencer uma carreira acadêmica que o levou ao cargo de reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, mostrou que, com esforço, é possível corrigir os rumos do destino.

Mas, o destino não se deu por vencido e lhe aprontou outra. Acusado de “obstruir as investigações” que apuravam desvio de dinheiro da Universidade, ele foi preso e afastado do cargo pela juíza da 1ª Vara Federal de Florianópolis, através de decisão que atendia pedido da Polícia Federal. Saliente-se: o procedimento não o acusava de envolvimento no desvio de dinheiro.

Tendo ganhado as redes sociais a notícia de sua prisão, se entornou sobre ele o escárnio dos que julgam pelas aparências, dos que se deixam seduzir pelas manchetes e pelo sensacionalismo que as operações da Polícia Federal desatam, com seu batismo de pomposas alcunhas: “lava jato”, “ouvidos moucos”, “cui bono”, etc.

 Segundo notícia da Veja, o reitor “foi algemado, acorrentado pelos pés e submetido a revista íntima. De uniforme cor de laranja, permaneceu trinta horas detido, parte delas em um presídio de segurança máxima, e ao sair ficou proibido de pisar no campus da universidade.”

Mais do que as 30 horas de prisão, seu afastamento da universidade foi o que pesou para apagar todo o sentido que ele emprestava à própria vida: desonrada, ela se lhe tornou inútil. Cancellier suicidou-se, alguns dias depois. Junto com sua carteira de identidade foi encontrado um bilhete que dizia: “A minha morte foi decretada quando fui banido da universidade!!!”.

Semana passada, na comemoração dos 57 anos de fundação da Universidade Federal de Santa Catarina, seu nome foi reverenciado. Em ambiente repleto de cartazes alusivos aos acontecimentos que levaram Luiz Carlos Cancellier de Olivo à morte, discursou o atual vice-reitor. E isso foi o bastante para que, a pedido da delegada que presidiu o fatídico inquérito, a polícia federal instaurasse outro procedimento “a fim de apurar a existência de ofensas” à instituição.

Isso só acontece quando as regras se tornam escravas do sistema. Enquanto alguns correm à Justiça, para que essa lhes garanta uma dignidade incólume, a outros se lhes esfola a alma num calabouço. O sensacionalismo oco de procedimentos que arrancam orgasmo da imprensa, quando outra coisa não deveriam representar senão o exercício discreto das funções públicas, é alçado acima da “inviolabilidade da vida privada e da honra”, prevista no art. 5º inc. X da CF, e do batido, enxovalhado e ignorado “todos são iguais perante a lei”.

 

Autor

João Eichbaum

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