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A necessária ampliação e releitura da memória do 25 de julho – Artigo de Marcus Diesel

30 de julho, 2017 às 11:18 - por Marcus Diesel

                                      São Leopoldo comemorou no último dia 25 de julho os 193 anos do começo da imigração alemã no Brasil, com a tradicional “São Leopoldo Fest”. Alguns consideram, inclusive, tal data como a da fundação do Município. No site da Prefeitura Municipal na internet, encontra-se apenas um breve parágrafo tratando do histórico da cidade. Eis seu teor: “o primeiro grande impulso no desenvolvimento de São Leopoldo foi dado no início do século XIX com a chegada dos primeiros imigrantes alemães. Somando-se aos descendentes de portugueses e negros que tocavam as fazendas, que até então pontuavam na economia local, os imigrantes superaram barreiras culturais, logísticas e da falta de recursos, transformando a região num expressivo cenário produtivo e comercial. O desenvolvimento conquistado ganhou reconhecimento estadual e nacional, justificando a segunda ferrovia e a segunda rodovia pavimentada do país, ligando o município à capital do Estado. A partir desta história de superação e conquistas, São Leopoldo recebeu, recentemente, o título de município Berço da Colonização Alemã no Brasil.”

Embora não ignorem por completo o fato de que os 39 colonos de origem germânica que aportaram às margens do Rio dos Sinos em 25 de julho de 1824 encontraram uma localidade habitada por descendentes de portugueses, de imigrantes de outras origens e de africanos escravizados, a memória oficial do Estado, a memória ensinada nas escolas e comentada nas ruas, enfim, os marcos de recordação são, de fato, simplificações reducionistas da história. Existe o mito de que São Leopoldo foi fundada por colonos alemães que, por seu esforço, alavancaram o desenvolvimento da região. Apesar da importância histórica indubitável, essa simplificação é equivocada e já deveria há tempo muito ser revista.

                        Inicialmente, uma questão que para muitos passa batida e por outros tantos é tida como licença poética é o fato de que em 1824 sequer existia ainda o país Alemanha com sua bandeira que ornamenta os atuais festejos. Isso só aconteceu com a unificação alemã de 1871, de modo que muitos “alemães” que aqui aportaram morreram sem sequer saber da existência do país que é tido como sua terra natal. Mas isso é mero detalhe.

                        Como lembrado em diversas obras, como “190 anos de imigração alemã no Rio Grande do Sul: esquecimentos e lembranças”, do professor Martin Norberto Dreher, e “O Negro e descendentes na sociedade do Rio Grande do Sul”, do historiador Cláudio Moreira Bento, bem como em trabalhos acadêmicos, como “Na trama dos escravos de Sua Majestade: o batismo e as redes de compadrio dos cativos da Real Feitoria do Linho Cânhamo (1788-1798)”, da historiadora Renata Finkler Johann, a história  ocupação de São Leopoldo começa em 1788, com a transferência da maioria das famílias de escravos da feitoria do Linho e Cânhamo de Canguçu para Faxinal do Courita, que é como se chamou o vilarejo em que foi estabelecido em terreno escolhido pelo coronel Rafael Pinto Bandeira, que havia assumido o governo interino em 1784. Pinto Bandeira justificou a mudança pela necessidade da transferência em razão dos confrontos com os espanhóis no sul do território da Província de São Pedro. O interesse de tal militar, contudo, parecia ser a valorização da propriedade dele, a Estância do Gravataí, vizinha à área escolhida.

            Em 14 de outubro de 1788, chegaram ao Faxinal do Courita, 18 casais de escravos, 29 crianças, 11 escravos e 27 escravas de “confisco”, um peão, um soldado dragão e dois feitores, além do inspetor e tenente Antônio José Machado de Moraes Sarmento. Os escravos tinham 15 sobrenomes distintos. A Real Feitoria do Linho e Cânhamo encerrou suas atividades em março de 1824, sendo que no inventário de transferência final dos escravizados, em lista nominativa de 324 indivíduos, não apareciam cinco deles: Lima, Teixeira, Ancheta, Gomes e Santiago. No decorrer da história do empreendimento real, há o registro de diversas transferências de escravos de estâncias locais, bem como sobrenomes agregados e fugas. Houve ao longo dos anos a consolidação de famílias estáveis e alguns historiadores atribuem a isso a relativa autonomia e as revoltas frequentes dos indivíduos contra o sistema de trabalho que lhes foi imposto, o que teria contribuído para o fracasso econômico da Feitoria.

                        A região que os imigrantes germânicos encontraram naquele 25 de julho, pois, já era habitada por portugueses e descendentes de portugueses, açorianos, “cristãos novos” fugidos da Inquisição, soldados espanhóis desertados e mais de um terço da população de descendentes de africanos escravizados, além de alguns fugidos que formaram quilombos e outros emancipados, e dos indígenas. Havia estâncias pertencentes a militares e a traficantes de escravos, como a Fazenda Leão, na região de Sapiranga. O prédio conhecido hoje como “Casa do Imigrante” era, na verdade, uma construção portuguesa que abrigava a sede da Real Feitoria. As primeiras habitações que abrigaram os colonos, aliás, não guardavam semelhança com a arquitetura da Europa. Foram as construções do estilo de casa de pau a pique, trançados de taquara preenchidos com barro, técnica que os colonos aprenderam com os escravizados.

                        A imigração germânica seguiu crescendo nos anos seguintes, sendo que as terras destinadas aos colonos que se chamavam “picadas” (nomenclatura de muitas delas até os dias de hoje), mais distantes do território que hoje pertence a São Leopoldo, estavam em territórios indígenas (fato conhecido pelo governo imperial) nos quais houve disputas sangrentas entre colonos e silvícolas. Muitos colonos, principalmente os que conseguiam produzir excedentes, foram também adquirindo trabalhadores escravizados, ao contrário do que muitos acreditam.

                        Essa história, rica em fatos e personagens, possui traços peculiares que não devem ser esquecidos. O povo leopoldense merece que essas histórias sejam contadas e tenham sua devida importância divulgada, debatida e quiçá ombreada à dos colonos germânicos. Não se trata de desmerecer a importância germânica, que é enorme, e nem questionar o pioneirismo do Município – ainda que se tenha notícia de muitos imigrantes germânicos estabelecidos em Nova Friburgo e mesmo nas terras do Rio Grande do Sul meio século antes dos 39 aqui aportarem. Trata-se de resgatar uma dívida histórica, de narrativa e importância dos que primeiro habitaram e trabalharam por aqui. A história é cruel e banhada de sangue, e somos todos nós consequências de muitas miscigenações dos nossos antepassados. Merecemos que os fatos sejam esclarecidos e difundidos, menos os mais horrendos, como os pormenores da nefasta escravidão de seres humanos que tanto nos envergonha – ao menos, deveria.

Marcus Diesel é Servidor Público, bacharel em direito e mestre em filosofia.

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