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Não sou sua querida – Crônica de Mariléia Sell

17 de agosto, 2018 às 18:06 - por Mariléia Sell

Aconteceu de novo. Não é a primeira e, certamente, não será a última vez que fui chamada de “querida” em uma reunião de trabalho. A diferença é que agora não fico mais com aquela sensação de incômodo, aquela sensação de desajuste por não ser levada à sério. Agora eu interrompo, para espanto de todos e de todas, quem se dirige a mim dessa forma e digo: “para você, sou professora”. Evidentemente, nem todos os homens que fazem uso do termo o fazem com a intenção de diminuir a mulher. Da mesma forma, nem todas as mulheres reconhecem esse uso como uma expressão machista. Um machismo carinhoso, um machismo cavalheiro, mas, ainda assim, um machismo. Estudiosos e estudiosas da análise crítica do discurso vão dizer que é justamente por isso que esse tipo de manifestação, disfarçada de elogio, revestida pelo verniz da gentileza, é tão poderosa, porque ela opera no campo do simbólico, não é tão visível quanto uma agressão verbal, um tapa, um chute, um empurrão do quarto andar. É uma manifestação que confunde a percepção dos mais desavisados e das mais desavisadas.

Não é novidade para ninguém que as mulheres brasileiras têm baixíssima representatividade na política e em outros espaços de poder, mesmo que sejamos a maioria em termos de contingente populacional. De 188 países, ocupamos a vergonhosa posição 142 no que se refere a representação no Poder Legislativo. Isso não vem de graça, vem de uma longa trajetória de desequilíbrio e de perpetuação de mecanismos de desvalorização, sutis ou escancarados, das mulheres. No imaginário social, a mulher sempre esteve atrelada ao mundo doméstico, à maternidade, ao cuidado. Associada às tarefas não remuneradas. Aos homens, sempre couberam as tarefas do mundo externo: a política, as ciências, os negócios, enfim, as tarefas sérias, que exigem comando, raciocínio e decisão.  Assim, toda vez que uma mulher é chamada de “querida”, “anjo”, “linda”, “meu bem”, “docinho”, “princesa”, “menina”, “guria” no ambiente de trabalho ela é arremessada de volta ao ambiente privado, doméstico, porque esse tipo de manifestação acontece entre pessoas íntimas, na esfera privada. Sempre que uma mulher não é tratada com o mesmo respeito e distanciamento que se tem para com os homens no ambiente profissional, ela é empurrada para um espaço de menor valor social, um lugar de não reconhecimento, um lugar de desqualificação e de invisibilidade.

Quem não lembra da emblemática expressão “tchau, querida”, quando a maioria masculina do congresso votou pelo impedimento da presidenta? Ora, esse uso foi uma alusão à forma como o ex-presidente Lula despediu-se da presidenta em alguns dos áudios vasados pela Polícia Federal. Ou seja, a expressão foi usada na esfera privada, não foi pensada para o espaço público. Quando essa expressão é deslocada do seu lugar de produção, ela assume um tom de deboche, de ironia, de desrespeito à mulher Dilma.  É como dizer: “vai, querida, aqui não é o teu lugar”. É como dizer, fazendo coro à Revista IstoÉ, “volta para casa, querida, você é uma desequilibrada e uma histérica, não serve para o complexo jogo político”. É como dizer, com a condescendência de um pai, “querida, acredite, eu sei como as coisas funcionam”.

Pois eu não estou disposta a voltar para casa. E não sou sua querida. Aliás, anda pouca a minha disposição para ser querida.

Mariléia Sell é Professora Doutora dos Cursos de Letras e Comunicação da Unisinos

 

 

 

 

Autora

Mariléia Sell

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