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“Não passa de um rostinho bonito”: machista, eu? – Artigo de Mariléia Sell

08 de fevereiro, 2018 às 22:52 - por Mariléia Sell

O episódio desta semana, no município de São Leopoldo, escancara o que as mulheres enfrentam diuturnamente por não terem tido a graça de nascerem homens, esses sim, mais dotados, mais inteligentes e mais preparados para ocupar os espaços públicos e para realizar o que o sociólogo francês Pierre Bourdieu chama de “contratos sociais”. A procuradora geral do município, jurista respeitada no país inteiro, ao proferir uma opinião sobre a parcialidade do sistema judiciário brasileiro (convenhamos, essa opinião foi dura mesmo, procuradora!), foi lembrada de que não tem competência para opinar e de que não passa de um “rostinho bonito”. Para corroborar esse conhecimento milenar que se tem sobre as mulheres, apareceu um expoente político da cidade para também nos enriquecer com a sua opinião, caso ainda não tenhamos compreendido. O referido político, versado em estudos de gênero (tão entendido que quer acabar com essa promiscuidade da “ideologia de gênero nas escolas”), assevera que o tipo de mulher que merece respeito é aquele que se dedica aos “afazeres de mulher”. Dada a importância dessa constatação, ele a proferiu na tribuna da  câmara de vereadores, na casa do povo, como tem que ser. O povo precisa estar informado desses expedientes importantes. Os afazeres femininos a que o político se refere, por óbvio, não incluem a política. O que seria de nós se não tivéssemos os respeitáveis homens públicos para nos lembrar disso? Nós, mulheres, temos essa mania irritante de esquecer o nosso lugar.

As mulheres são menos inteligentes, a medicina se ocupou em comprovar isso “cientificamente” (para que não restem dúvidas) desde o século 19, quando essa ciência (masculina, diga-se) “provou” que toda a nossa energia é canalizada para o útero. Pobres de nós, o destino da maternidade usurpa de nós qualquer possibilidade de ter um cérebro. E não há contestação, é a ciência que está dizendo e ela, a ciência, é imparcial, amparada pelo seu rigor metodológico. Por isso mesmo, não podemos nunca nos ocupar com atividades sociais mais complexas, atividades que extrapolem o ambiente doméstico, atividades que mereçam raciocínio mais elaborado do que o exigido para ir da pia ao fogão. Ainda bem que temos os homens, naturalmente mais inteligentes, que realizam essas atividades por nós. E ainda somos ingratas, muitas vezes, ah, como é difícil agradar as mulheres! Ao ocupar espaços públicos, desdenhamos desse conhecimento que os homens têm sobre nós, são séculos de estudos que colocamos em cheque, como crianças que teimam em afrontar a autoridade paterna. Aliás, não agimos como mulheres, somos umas “meninas”, como tão bem nos lembra o cidadão que se sentiu a vontade para avaliar a beleza da procuradora. Mulheres são constantemente associadas a crianças, são seres que nunca chegam a seu estado pleno de desenvolvimento, precisam, portanto, de pais, de irmãos e de maridos benevolentes para chancelar suas mentes fracas e  inclinadas ao vício e à fraqueza.

Todas nós sabemos que somos o belo sexo da natureza. Nosso destino é estarmos belas para inspirar aqueles que, dotados de uma inteligência maior, nos tomam como musas inspiradoras para suas criações. Não precisamos nos preocupar com o fato de não termos capacidade criadora, somos imortalizadas nas obras dos artistas homens. Por isso é importante lembrar de cuidar de nossos rostinhos, para que sejam sempre bonitos. Também seremos avaliadas pela nossa elegância, como nos lembra o mesmo cidadão preocupado com a estética feminina. A procuradora, no caso, peca por não ser elegante. Fica a dica, procuradora, precisamos retomar essa lição para não sair decepcionando por aí.

Para todos e todas que acharem que a atitude do cidadão que detonou essa celeuma (não o que contribuiu posteriormente com suas reflexões sobre o papel social da mulher) é machista, ele explica. Não se trata de machismo, não. Ele não é machista coisíssima nenhuma. Ele tem mulher e filhas e ama mulheres, ok? Depois de esclarecida essa questão, de uma vez por todas, é importante também que façamos um esforço para entender que ele está se sentindo assediado. Ele está sendo vítima, porque, afinal de contas, quem começou tudo isso foi a procuradora. Quem mandou ela dar a sua opinião? Ele tem mesmo que procurar seus direitos na justiça, como  já avisou que fará. A justiça está aqui pra isso, não é mesmo? Para fazer justiça. Ainda bem que vivemos em um país razoável em que tudo isso é observado na fria letra da lei!

Mariléia Sell é Professora Doutora dos Cursos de Letras e Comunicação da Unisinos e Secretária Adjunta de Educação de São Leopoldo

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