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A MORTE OS ESPERAVA NO MORRO DO CHAPÉU – Crônica de João Eichbaum

27 de julho, 2017 às 13:12 - por João Eichbaum

Entre eles ninguém cogitava de ir para o céu, padecer no purgatório ou arder no inferno. Eram fuzarqueiros, mulherengos, boêmios, ligadões nas boas farras da vida. Ninguém melhor do que eles, os membros do “Clube dos Cafajestes”, representava a alma carioca das décadas de 40 e 50. Para eles, o paraíso, o começo e o fim da vida, era Copacabana.

Heleno de Freitas, centroavante do Botafogo e da seleção brasileira fazia parte do grupo. O doutor Heleno, como alguns o chamavam porque havia se formado em Direito, tinha o diploma da malandragem, exigida pelo Clube dos Cafajestes. Outro galhofeiro da turma era o jornalista Sérgio Porto, que escrevia com o pseudônimo de Stanislau Ponte Preta, e se tornou famoso, mais tarde, como autor do “Samba do Crioulo Doido”.

Mas uma figura que pontificava no Clube, tendo sido seu fundador e presidente, idolatrado por todos, era o comandante Edu. Folgazão e irreverente, sempre de bem com a vida, e pronto para qualquer sacanagem tropical, Eduardo Henrique Martins de Oliveira era piloto da Panair do Brasil.

 Naquele dia 28 de julho de 1950, pilotando o “Constellation” prefixo PP-PCG, Edu decolara do Galeão às 15:47, rumo a Porto Alegre. Como sempre, alegre, brincalhão e festeiro, havia prometido aos companheiros do Clube a melhor carne gaúcha para churrasco, chegasse ele a hora que chegasse de volta, na Confeitaria Alvear, em Copacabana.

Entre os passageiros do “Constellation” estava Zenir Aita, uma jovem santamariense, certamente pastoreando seus pensamentos cristãos. De tradicional família católica, exemplo de retidão cristã, aos 23 anos já era docente do Curso de Formação de Professores da Escola Normal Olavo Bilac. Acompanhada de seus tios, fora passar as férias de julho no Rio de Janeiro.

 Na hora prevista para o pouso em Porto Alegre, já anoitecia e a região metropolitana estava banhada por uma daquelas chuvas intermitentes de inverno, acompanhadas de cerração. Ao anunciar aterrissagem à Torre de Controle, o comandante Edu não obteve permissão, porque o então Aeródromo São João, naquelas condições climáticas, com sua pista de chão puro, não comportava pouso de aviões tipo “Constellation” e “Douglas”.

O piloto recebeu então a ordem de pousar na Base Aérea de Gravataí, onde já havia piso asfaltado. Mas, tinha pela frente o desafio de encontrar o quadrilátero de aterrisagem, escondido sob a noite, a cerração e a chuva: a Base não possuía instrumentos sinalizadores de aproximação.

Eram oito da noite em São Leopoldo, quando o silêncio do Morro do Chapéu, encoberto pela neblina e pela escuridão, foi destruído por um estrondo de guerra e um crepitar de chamas gigantescas: havia um gigante de pedra no caminho daquelas 51 vidas que estavam a bordo do Constellation da Panair. Sem dar tempo para o calafrio final, o cataclismo a ninguém poupou, decompondo corpos ou os entregando às chamas.

Ao lhes negar, para sempre, o amanhecer de todos os dias, o acaso da morte igualou os opostos na vida.  O Clube dos Cafajestes esperou, numa vigília inútil, a volta de seu líder e a carne para o churrasco. Em Santa Maria, o jornal A RAZÃO estampava a manchete: “Maior desastre da aviação brasileira”. E anunciava para a cidade, oprimida entre a estupefação e a tristeza, a substituição da missa de aniversário dos doze anos da Escola Normal Olavo Bilac, por uma missa pela alma de Zenir Aita.

 

Autor

João Eichbaum

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