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Jorra gasolina na terra prometida – Crônica de Mariléia Sell

30 de maio, 2018 às 21:22 - por Mariléia Sell

Na semana passada, na BR 116, passei por uma barreira. Era noite e eu estava sozinha. Quando vi que era uma trilha de pneus em fogo, em pleno asfalto, era tarde demais, eu estava em cima. Os policiais federais, com os ares mais solenes, de quem tem a distinta missão de reestabelecer a paz mundial, abriram uma brecha no fogo, da exata largura de um carro, e pediram, imperturbáveis, que seguíssemos nosso destino. Busquei contato visual com um deles; meus olhos queriam gritar que eu não era Mad Max. Que tinha medo de passar pelo fogo e o carro explodir. Baixei o vidro do carro, fixei o olhar num policial gordo, com os botões da farda naquela perigosa tensão de explodirem na minha cara. Ele não devolve o olhar. Tinha uma multidão para organizar. Que seguíssemos. Nada de chiliques. Não num momento como esses, em que a segurança nacional estava tão a perigo.

Os últimos dias, no Brasil, nos levam a uma inevitável associação com o apocalipse. Os caminhoneiros e caminhoneiras nos trouxeram, de súbito, a constatação de que a nossa vidinha programada anda sobre rodas e que cruza o país de norte a sul. Nossa comida, nossa gasolina e nossos remédios dependem do sacrifício desses/as trabalhadores/as, que, aborrecidos/as com as políticas da nação, resolveram parar. Eles/as pararam, e nós tivemos que parar também. Não que quiséssemos, porque sempre é possível aguentar um pouco mais os desmandos. Sempre é possível cortar um pouco mais a ração diária. Pensando bem, dá até para diminuir o lazer, que já é pouco, e aumentar o trabalho, que já é demais. Sempre dá. Para os/as caminhoneiros/as, não deu mais.

O que se viu foram cenas dignas de um anúncio de guerra. Nos supermercados, as pessoas empurravam furiosamente os seus carrinhos, abarrotando-os com os itens que julgavam os must have antes de o mundo finalmente acabar. E olha que desta vez o fim nem foi anunciado. Nos pegou de calças curtas. Quando eu  consegui acessar o mercado, porque na primeira tentativa sequer consegui estacionamento, fiquei um pouco perturbada: do que eu preciso mesmo nos derradeiros dias da vida? Vi pessoas comprarem arroz com um quase desespero. Por via das dúvidas, comprei também. Dá para fazer risotos e colocar qualquer coisa junto. O tipo do prato versátil. Mais arroz. Percebi que as pessoas compravam fardos e mais fardos de papel higiênico. Seria indigno o mundo acabar e a gente não poder estar limpo numa hora emblemática como essas! Comprei um fardo de Neve. Que seja suave este fim do mundo!

Entretanto, o que mais comoveu o povo brasileiro foi a falta da gasolina. Imediatamente, filas intermináveis brotaram nos postos. Como o que impera sobre a ética e a moral são as leis do mercado, ou seja, a relação entre procura e oferta, os preços subiram ofensivamente. Mas o povo paga. O povo sempre paga. Com o país à meia fase, tudo meio parado, surgem clamores de que algum salvador da pátria dê jeito nessa zona. Já que nada deu certo, já que a democracia não funcionou por aqui, muitos pedem que os milicos devolvam a ordem. De progresso não falaremos agora, este fica sempre no horizonte do desejo! Muitos/as não associam a intervenção militar a uma ditadura. Acham que os militares virão, pedirão com licença, ajeitarão a confusão e irão embora. Todos/as querem, assim como no mundo pós apolíptico de Mad Max, a sua gas town de volta, querem combustível. Todos querem uma vida imperturbável. Querem tanto que, em troca, ofertam a liberdade no altar da negociata. Todos/as querem encher seus tanques e ir para onde quiserem, mesmo que os caminhos sejam sempre os mesmos; os caminhos programados da servidão voluntária.

Para além das fileiras intermináveis de luzes vermelhas nos postos, existe uma terra prometida, uma gas town. Lá jorra gasolina abundantemente, os motores rangem e entregam toda a sua potência. Os homens e mulheres por detrás das máquinas suspiram aliviados/as, porque podem seguir o seu destino, como me disse o policial, sem barreiras de fogo. Mas qual destino mesmo?

Mariléia Sell é Professora Doutora dos Cursos de Letras e Comunicação da Unisinos

 

 

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