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A infância ultrajada que joga pedras no Papai Noel – Artigo de Mariléia Sell

20 de dezembro, 2017 às 20:33 - por Mariléia Sell

Todos os anos, nesta época natalina, há uma espécie de fúria incontida nas pessoas. Tudo o que já é intenso ao longo do ano atinge proporções cataclísmicas, porque, afinal de contas, é preciso correr muito para garantir a magia do natal, pode faltar tudo menos a magia do natal!  A magia vem embalada em coloridos papéis de presente e é parcelada em incontáveis vezes no cartão de crédito.

Contudo, um recente e chocante episódio desafia toda essa magia natalina e abala a aura de encantamento que cerca o natal. Crianças, sim crianças, atiraram pedras no bom velhinho, o mensageiro da magia natalina. O incidente ocorreu em Itatiba, interior de São Paulo, no último dia 10. Crianças enfurecidas atacaram o Papai Noel porque as balas acabaram.  Como pode isso? Perdeu-se qualquer noção de autoridade? Não se respeita mais nem o maior representante dos guardiões da terra? Não se cultiva mais a magia do natal? Ouvi essas perguntas de muitas pessoas, com genuíno horror nos olhos.

Eu sempre suspeitei de leituras rasas sobre qualquer fenômeno social, porque avaliações polarizadas como “isso é certo, aquilo é errado” não explicam nada e reduzem qualquer debate ao senso comum. Fiquei refletindo sobre aquelas crianças furiosas. Quem são elas? Por que andam tão brabas? Eram de uma vila pobre, a imprensa divulgou, bem pobre, por sinal. Parece que ninguém entrava lá. Em vilas pobres, como bem sabemos, há pouca ou nenhuma presença do Estado, instauram-se, assim, o que se convencionou chamar de estados paralelos.  A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura divulgou recentemente o dado de que o número de famílias brasileiras extremamente pobres chega a 7 milhões e que estamos a passos largos e certeiros para voltar ao famigerado mapa da fome mundial. Consequentemente, não é preciso ter grande capacidade analítica para perceber que o nosso país trata mal as suas crianças, apesar de ter o documento mais vanguardista no mundo, que é o Estatuto da Criança e do Adolescente. Também a nossa Constituição, a carta cidadão de 1988, é generosa nas suas promessas para o cidadão. A Constituição é o contrato que o Estado mantém com cada habitante deste país e lá encontramos garantias de educação, saúde, segurança, moradia, lazer, liberdade. O Estado falha na sua promessa básica e a culpa do fracasso é repassada para o indivíduo. Quem já não escutou a falácia de que todos têm as mesmas oportunidades? Esse discurso é que permeia a ideia da meritocracia, por exemplo. É muita hipocrisia dizer que aquelas crianças furiosas têm as mesmas chances que as crianças que crescem sem a necessidade de correr atrás de um carro de Papai Noel para ter algumas balas para garantir a magia do natal. Balas que acabam no meio do caminho, que não chegam, como nada na vida daqueles meninos e meninas.

Pode parecer audacioso da minha parte, e estou apenas refletindo, mas a ação daquelas crianças tão ultrajadas pela pobreza é um manifesto político. Uma maneira de elas dizerem que a violência é estrutural na nossa sociedade. Uma maneira de elas darem o recado de que a violência é o que elas melhor conhecem no seu cotidiano, um cotidiano em que não há espaço para magia, não há a magia da comida na mesa, não há nada, há apenas tristeza e abandono. Essas crianças pobres deram um recado que precisamos ouvir: no seu manifesto elas gritam que falhamos como sociedade, que não zelamos por aqueles que são sabidamente vulneráveis e que tanto necessitam de proteção, amparo e condições para o seu desenvolvimento pleno. Aquelas crianças me ensinaram muito. As crianças são sempre esses seres genuínos e despidos de hipocrisia e filtros moralistas, sei disso porque sou professora e mãe.  Agora vou catar algumas pedras. Até mais!

Mariléia Sell é Professora Doutora dos Cursos de Letras e Comunicação da Unisinos e Secretária Adjunta de Educação de São Leopoldo

 

 

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