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Eu sou uma barata – Crônica de Mariléia Sell

10 de outubro, 2018 às 09:54 - por Mariléia Sell

As distopias são o alerta de que tudo pode dar muito errado, mas com a aparência de que está certo, de que finalmente a ordem foi restaurada e a paz, reconquistada. No episódio Engenharia Reversa, da série Black Mirror, soldados recebem implantes em seus visores. Esses implantes fazem com que eles enxerguem os grupos sociais minoritários como baratas. Nessa lista entram todos os “geneticamente degradados”: os deficientes, os gays, os negros, os pobres, os insubordinados (seriam as feministas?), os doentes. Sendo assim, quando os soldados apontam a arma de extermínio não estão enxergando uma pessoa, mas uma enorme e nojenta barata. “Fica muito mais fácil puxar o gatilho mirando o bicho-papão”, diz um dos idealizadores dessa engenharia. E o bicho papão é uma construção discursiva. Ou seja, os discursos de ódio contra grupos minoritários, reproduzidos à náusea, constroem um efeito de negação da humanidade do outro. O outro é coisificado, vira uma barata. É o ser abjeto que merece ser exterminado para que, assim, o mundo seja devolvido aos limpos, à supremacia branca, rica e heterossexual.

O visor que deturpa a percepção dos soldados é a arma militar perfeita e definitiva. “Nós controlamos o que você vê, Stripe”, diz um dos idealizadores, um psiquiatra, homem que entende do funcionamento da mente humana. O soldado é o cidadão comum com o seu visor, fartando-se com programas midiáticos que promovem o riso fácil e o pensamento raso. Programas que simplificam fenômenos complexos de modo a torná-los verdades inquestionáveis. São as fake news que dialogam com os medos de cada um e que instalam um pânico moral e que inauguram uma disputa entre o eu e o outro: o impuro, o corrupto, o inimigo.

O soldado é o cidadão comum que começa a enxergar baratas em todo o lugar e está disposto a promover uma higiene social. O cidadão com visor é o cidadão que não precisa pensar, pois tudo já está mais do que pensado. A realidade está posta e só não a enxerga quem não quer. Só não enxerga que o sul e o sudeste é que sustentam os nordestinos pobres e preguiçosos quem é burro. Só não enxerga o avanço do comunismo e a iminência de nos tornarmos uma Venezuela quem é esquerdopata. Só não percebe o perigo que nossas crianças correm com a “ideologia de gênero” grassando em nossas escolas quem é pervertido. São baratas que precisam ser exterminadas. E serão. Haverá licença para isso. E armas também.

Só não enxerga que o estado precisa ser minimizado quem defende vagabundo que quer ficar pendurado eternamente no Bolsa Família. A otimização do estado, claro, passará por cortes sistemáticos nas políticas sociais. Não passará, evidentemente, pela cobrança de impostos dos ricos. Isso não. Será sempre uma otimização seletiva.  Por que os ricos não são baratas nojentas. Eles não ofendem os olhos daqueles que não suportam pobre. Ser rico é o que está no horizonte de todo o cidadão comum. Aliás, o cidadão comum paga infindáveis juros aos bancos para manter seus pequenos luxos burgueses financiados em 30 anos achando que compartilha do mesmo universo simbólico dos ricos. Isso quando ele não acha que é rico também. E por achar-se rico enxerga os pobres como baratas. E baratas precisam ser exterminadas. Assim como os ratos: os judeus da campanha nazista. É sempre o outro imundo, com o qual não me identifico. Do qual sinto repulsa e ódio. O meu inimigo.

“Fica mais fácil puxar o gatilho mirando uma barata, Stripe”. A lógica do extermínio e do holocausto passa por um processo sistemático, e discursivo, de desumanização. Nós, os diferentes, não somos mais pessoas. Somos baratas. Baratas na mira de uma arma.

Mariléia Sell é Professora Doutora dos Cursos de Letras e Comunicação da Unisinos

 

 

 

 

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Mariléia Sell

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