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Eu sou a outra – Crônica de Mariléia Sell

23 de maio, 2018 às 14:33 - por Mariléia Sell

Há alguns dias recebi o retorno sobre um artigo científico que enviei para publicação em revista altamente qualificada.  Para quem já enviou artigo para avaliação, sabe que esse momento é emblemático. Os/as pareceristas precisam ter coisas inteligentes a dizer e mais coisas ainda para criticar. E eles/as sempre têm, acreditem. Se não tiverem, poderão passar por incompetentes, e isso todo mundo evita como a morte.

Quando finalmente estava preparada para sofrer abalos na minha autoestima, li o parecer do primeiro professor. Ele elogiou as minhas escolhas teóricas e metodológicas. Elogiou os dados. Elogiou a análise dos dados. Elogiou a estrutura do artigo. Elogiou a minha escrita. Tudo estava super adequado, exceto por uma coisinha, coisa bem pequena mesmo, insistia, delicadamente, o professor. Só queria alertar-me para o uso das barras e do artigo ‘a’ toda vez que aparecia o genérico masculino na escrita. Assim, quando eu falava, por exemplo, que é pelo/a outro/a que as identidades são negociadas, o professor sentia-se incomodado com tanta poluição gráfica. Não sabia eu que na palavra ‘outro’ estava também implicado o gênero feminino? Sim, a ‘outra’ estava lá também, escondida dentro do ‘outro’. Qualquer pessoa sabe disso! Para que polemizar?

Na minha resposta, cada palavra perfeitamente posicionada, expliquei-lhe que na Sociolinguística deslocamos o entendimento de língua como uma estrutura fechada em si mesma para um entendimento mais situado. Nessa perspectiva, interessa saber como o/a falante usa a língua para fazer coisas no mundo. Esse ajuste de lentes sobre o fenômeno muda tudo. Tudinho. O/a falante, cada vez que assume a palavra, age no mundo, fabrica a realidade, porque a realidade não existe fora do discurso. E essa realidade pode ser alterada, se isso for conveniente.  Porque não existe língua sem o/a falante.  Por que língua não é um cemitério de palavras, como já dizia o filósofo da linguagem, Mikhail Bakhtin. É pela língua que fazemos absolutamente todos os acordos sociais. Pela língua nos constituímos como sujeitos/as. Pela palavra costuramos as pequenas miudezas da vida, todos os dias. A própria bíblia atribuiu à palavra a concretude do mundo. Deus nomeou as coisas e elas passaram a existir. Se Deus não as tivesse nomeado, não existiriam. Isso é uma constatação poderosa. Maravilhosa. Cataclísmica. Ora, se as coisas só existem quando ganham materialidade na língua e se na língua o gênero feminino está encoberto pelo masculino, significa dizer que a mulher não é nomeada. O que não é nomeado, não existe, ou existe como algo desviante do padrão, que é masculino. Interessante, não?

Os fiscais da língua diriam que incluir o gênero feminino corrompe a pureza do nosso português. Chegam a dizer que é bobagem preocupar-se com irrelevâncias dessa natureza. Afinal, com tantas coisas realmente importantes para mudar, pra que mexer na língua? Quem não lembra do infindável debate sobre o uso do termo presidenta?  Dilma Rousseff optou por ser chamada de presidenta. A nação toda percebeu-se pouco letrada em português e ficou em dúvida se era correto o uso de presidenta. Como a preguiça suplanta a curiosidade, poucos foram ver que a nossa gramática régia permite o uso no feminino desde o século XVI e que o verbete está, inclusive, dicionarizado. E que se estivesse incorreto, ainda assim, poderíamos inaugurar um termo novo. A língua é um órgão vivo e palavras novas surgem a toda hora. Afinal, quem manda na língua são os/as falantes, e não o contrário!

O debate que a polícia da língua não trouxe é que esse incômodo todo não era, na verdade, linguístico, era um incômodo de outra ordem: o incômodo de ver relações de poder secularizadas sendo desafiadas. O incômodo todo era uma mulher no poder. Uma mulher de esquerda. Como escutei de uma colega, certa vez, “presidenta soa mal nos ouvidos”. Essa subversão toda incomodou tanto que a presidenta foi retirada do poder. Com o impedimento, reafirmou-se a anomalia da sociedade (em que mulheres não são presidentas) presente na língua (em que mulheres não aparecem porque estão contempladas pelo genérico masculino). Precisou-se, então, ridicularizar esse uso. Associá-lo com coisa de esquerdopatas. A própria presidenta foi acusada de sexista, na época. Ousou ser presidenta. Achou pouco e quis mais: ser nomeada como tal! Um absurdo sem precedentes na história nacional. OS/as golpistas logo corrigiram esse desvio!

O Brasil ainda está longe da feminização da língua ocorrida em outros lugares. Por aqui esse debate é tido como algo pitoresco.  Ora, para que macular a língua? Trunca a leitura. Polui o texto. Deixemos a língua em paz. A quem isso interessa? A nós, mulheres, certamente sim. Se é pela língua que ganhamos existência, ou não, a igualdade de gênero também passa, obrigatoriamente, por ela. Não nos iludamos, a língua não é e nunca foi neutra; ela é um signo político de poder. A feminista e escritora francesa Benoîte Groult alerta que a recusa do feminino na língua faz parte de uma estratégia para retardar a chegada da mulher ao poder.

Um dos maiores linguistas brasileiros, Marcos Bagno, ilustra bem o descalabro de se querer incluir a mulher no genérico masculino. Se uma mulher e seu cachorro estão atravessando a rua e um motorista embriagado atinge essa senhora e seu cão, o que vamos encontrar no noticiário é o seguinte: “Mulher e cachorro são atropelados por motorista bêbado”. Não é impressionante? Basta um cachorro para fazer sumir a especificidade feminina de uma mulher e jogá-la dentro da forma supostamente “neutra” do masculino. Se alguém tem um filho e oito filhas, vai dizer que tem nove filhos. Na verdade, a naturalização do uso do genérico masculino para designar homens e mulheres é que deveria nos causar espanto e estranhamento e não as iniciativas de uso inclusivo da língua. Na Análise Crítica do Discurso não faltam tratados sobre a naturalização das coisas como uma potente arma na artilharia do poder. Ora, se o uso naturalizado do genérico masculino é uma forma de exercer poder, resistir a esse uso é luta! É um ato político altamente feminista reivindicar a nossa inclusão na língua para acabar com a violência simbólica da invisibilização da mulher. Eu sou a outra. Não sou o outro!

A propósito, meu artigo foi aceito! Na Estudos Feministas, da UFSC.

Mariléia Sell é Professora Doutora dos Cursos de Letras e Comunicação da Unisinos

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