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A estabilidade indolente – Artigo de Marcus Diesel

05 de agosto, 2017 às 18:53 - por Marcus Diesel

                        A votação da Câmara dos Deputados que postergou ao fim do mandato de Michel Temer a avaliação sobre o recebimento da denúncia que lhe imputou a prática do delito de corrupção passiva, ao que tudo indica a primeira de uma série de duas ou três que serão confeccionadas pelo Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, mostrou, mais do que a iniquidade e a desfaçatez que o modelo político de coalizão de forças criado pelo chamado “Centrão” representa, que a busca atávica das elites políticas pela sobrevivência apenas começou.

                        Como alertou o filósofo da Unicamp Marcos Nobre, em esclarecedora entrevista concedida à BBC Brasil em 03 de agosto, há um racha no PSDB, o principal fiador do governo Temer, entre um grupo liderado pelo ressurgido caminhante Aécio Neves, que se colocou como um líder de bastidores e trabalha em prol de sobrevivência dos mandatos (e, por conseguinte, dos foros privilegiados) na próxima eleição ao legislativo federal, a primeira sem financiamento empresarial de campanhas, e o grupo ligado ao governador Geraldo Alckmin, que está “jogando parado” para emplacar sua candidatura à Presidência da República. As menções ao “relatório do PSDB” ocorridas durante a justificativa dos votos (muito comedidas em relação às do processo de impeachment de Dilma Rousseff, aliás) expressaram o alinhamento dos deputados do desse “Centrão”, grupo suprapartidário de cerca de 200 deputados outrora fortalecido e alçado ao protagonismo por Eduardo Cunha, com a tese de sobrevivência encampada por Aécio (que hoje se importa muito menos com a faixa presidencial do que com a sua cadeira de Senador).

O que devemos esperar com a permanência de Temer à frente do Planalto, acobertado pela imunidade temporária quanto ao primeiro delito exposto na denúncia do Ministério Público Federal? Certamente, não o avanço econômico cantado a quatro ventos pelo campo da centro-direita que preferiu a mantença de um presidente acusado de corrupção do que permitir seu devido julgamento perante o Supremo Tribunal Federal. O mercado, entidade abstrata de cunho ideológico e teleológico, que trabalha em seu viés da esfera política não tanto com conceitos objetivos da ciência econômica e estudos estatísticos e referenciais, mas muito mais com ideias abstratas e subjetivas como “ânimo”, não depende de Temer no centro do poder, mas sim do alinhamento de quem lá estiver com suas pautas. O que se pode esperar é uma luta nada cortês dos congressistas e partidos por recursos e cargos nas bases eleitorais, a fim de angariar recursos e capital político para a manutenção dos mandatos nas próximas eleições. Brasília passa a respirar 2018 com muito mais intensidade

Esse roteiro já está delineado e, salvo a ocorrência de fatos novos muito significativos, deve seguir sem surpresas – assim como não foi surpresa a manutenção de Temer na Presidência. Com efeito, o grau de hostilidade em relação ao atual Presidente na sociedade, nos meios de comunicação e nos redutos de poder é muito menor do que com seus dois antecessores. Michel Temer não desperta sentimentos de rejeição suficientes para instar a mobilizações sociais fortes o bastante para balançá-lo, não é uma figura que centraliza o descrédito com as instituições políticas, ainda que seu perfil seja representativo do meio. Como apontava há quase três séculos o filósofo escocês David Hume, a razão é escrava das emoções. E as emoções, ao que parece, estão amansadas e guardadas numa espécie de torpor coletivo, um misto de resignação, indolência e apatia populares, bem como receio de que tudo poderia ficar até pior. Esse sim, já estável e nada promissor.

Marcus Diesel é Servidor Público, bacharel em direito e mestre em filosofia                                                                  

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