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Espelho, espelho meu, existe alguém mais feia do que eu? – Crônica de Mariléia Sell

09 de março, 2018 às 20:12 - por Mariléia Sell

A pergunta não é uma sátira à rainha má de Branca de Neve e os Sete Anões, ela extrapola o mundo ficcional da fábula e finca os pés na tragédia da realidade. O recurso intertextual serve como gancho para trazer a narrativa de uma mulher vítima de abusos psicológicos de seu marido, durante 10 anos de casamento. O relato aconteceu por ocasião de uma palestra que fiz no dia Internacional da Mulher, para um grupo de funcionárias públicas. O marido a fazia repetir para si mesma, na frente do espelho, que era feia, feia e sem valor! Isso lhe rendeu uma alma destroçada e uma autoestima agonizante, que 20 anos de terapia não conseguiram reanimar. Décadas depois, essa mulher ainda continua assaltada pela dúvida sobre o seu valor, ela incorporou definitivamente o discurso do abusador, ela já não consegue acreditar em si mesma. Tudo porque era apaixonada, apaixonada e linda (e assim continua até hoje, não apaixonada, mas linda!).

O marido nunca encostou um dedo nela, nunca a deixou roxa, nunca lhe quebrou ossos, nem lhe deixou cicatrizes evidentes, ela não está nas estatísticas de feminicídio e de estupro, que vergonhosamente aumentam no Brasil. O delegado, nas queixas que veio a fazer, lembrava-a disso: ‘isso não configura violência, faz parte da dinâmica dos casais’. Ela não era, para o sistema judiciário, uma vítima autêntica. Vítimas de verdade apresentam sintomas, apresentam um corpo quebrado. Outra coisa, vítimas de verdade resistem aos seus agressores, certo? Se o casamento estava tão ruim, porque ela simplesmente não deixou o marido? Pesquisadores sobre a construção da identidade da vítima afirmam que há todo um roteiro pré-estabelecido a ser seguido pela “vítima autêntica”, aquela que vem a ser merecedora de justiça. Primeiramente, ela não se coloca em situações de risco (não anda sozinha, não usa roupas curtas, não bebe, não casa com parceiros violentos; quem já não ouviu a infame expressão ‘é mulher de policial’?). Durante o abuso, a vítima resiste, luta bravamente pela sua integridade física e psicológica (não importando aqui se o homem for muito mais forte fisicamente e se o ambiente for ermo, fechado, impossibilitando a fuga da mulher, ou se for mais poderoso socialmente, de modo a ter o sustento dessa mulher nas mãos; ela precisa apresentar marcas de resistência em seu corpo, não interessa se ela venha a morrer, aí ela será estatística). Por último, a vítima precisa ficar prostrada, arrasada, sofrendo um trauma eterno. Se ela, algum dia, mostrar sinais de superação é porque ‘não foi tão ruim assim’. Se esse passo a passo da vítima não for seguido à risca, como um script moral, o sofrimento da mulher não foi real, ela gostou de apanhar, ela mereceu.

Voltando à palestra que rendeu essa narrativa perturbadora e tão prenhe de reflexões, no evento eu falava de gênero como uma construção social. Identidades de gênero são forjadas por meio de dispositivos culturais que são inscritos em nossos corpos biológicos, de forma sutil ou à força mesmo. Judith Butler chamaria esse processo de “contínua estilização do corpo”. Sempre falo dos diversos discursos sociais que nos narram: a mídia, a igreja, a medicina, a literatura, a ciência, e depois relaciono esses discursos à realidade que vivemos enquanto mulheres (também os homens ficam presos nessas tecnologias de gênero). É exatamente por isso que contar histórias é algo tão sério e tão poderoso. Isso porque as histórias vão talhando a ferro e fogo as nossas identidades, como construções sociais que são. É exatamente por isso que a ação de contar histórias é também uma ação de poder: quem pode narrar quem? Como os diferentes atores sociais são narrados?

Bem, mas o legado dos discursos que narram as mulheres durante séculos não é nada vantajoso para nós: morremos mais, somos mais pobres, ganhamos menos pelo nosso trabalho, trabalhamos mais (porque acumulamos funções), precisamos ser belas (aprendemos desde crianças pequenas que valemos mais pela nossa plasticidade e menos pelo nosso cérebro), somos constantemente assediadas, somos as principais responsáveis pelo cuidado com a vida (seja com nossos filhos, seja com nossos  pais idosos), somos as que engrossam as filas dos hospitais e das cadeias para cuidar dos entes combalidos, somos as principais responsáveis pela formação (mal remunerada) na educação básica (no Brasil, oito em cada dez professores são mulheres), temos a nossa sexualidade mais regulada e mais vigiada que a dos homens (que gozam de uma certa licença social pela sua suposta sexualidade irrefreada, quase animalesca). Tudo isso é ‘natural’ para a mulher, ela é talhada para sempre para caber nesses espartilhos sociais; se ela não couber, é só arrancar-lhe algumas costelas e tudo fica bem; a sociedade volta a ficar em paz, sem essas perturbações do feminismo.

Mariléia Sell é Professora Doutora dos Cursos de Letras e Comunicação da Unisinos e Secretária Adjunta de Educação de São Leopoldo

 

 

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