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A escolha de Margarete – Crônica de Mariléia Sell

09 de maio, 2018 às 13:22 - por Mariléia Sell

Margarete vagava pelas calçadas da vizinhança. Tão logo caísse a noite, as tentações se multiplicavam. Também pudera, sua beleza não encontrava parâmetros neste mundo. Seu jeito requebrado e sedutor de andar, seguro e provocativo, roubava a paz de todos. E de todas também. Seus olhos eram sempre cheios de promessas e de insinuações. Tinha uma voz rouca, excessivamente auto confiante, dessas que baixam as defesas de qualquer um e que arrastam para mundos pouco convencionais. E todos sempre queriam ser arrastados. Todos e todas. Não faltavam convites para a vida boêmia e a ela entregava-se sem limites. E sem pudores. Era muito intensa, Margarete. Assim, para o espanto de ninguém, em uma dessas noites insones, engravidou. Teve dois filhos. Sim, logo dois! Ambos saudáveis e lindos! Um acidente que pode acontecer na vida de qualquer uma.

 A partir de então, Margarete começou a conviver com dilemas dilacerantes: conciliar os deveres da maternidade com a sua vida de jovem solteira. A cada dia que passava, era-lhe mais difícil equacionar as intermináveis mamadas com os chamados do mundo, sempre tão urgentes e tão interessantes. Como todas as mães, vivia no limite. No limite de suas forças e de seu juízo. Era duro suportar o peso de tantas expectativas sociais. Como era difícil! E solitário também. Uma mãe nunca pode contar às outras da sua inconformidade, da sua secreta revolta. Reclamar seria tomado como um gesto de muita ingratidão, quando é de domínio público que as mães gozam dos privilégios do paraíso. Mãe que é mãe padece no paraíso, sem jamais reclamar! O que seria dos alicerces do mundo se as mães dessem para reclamar? Tem coisas que o mundo não está preparado para ouvir. O mundo não quer ouvir. Seria muita verdade para suportar! Podemos lidar com qualquer coisa, menos com a dúvida sobre a devoção materna; esta é perene e eterna, mais até do que Deus, eu arriscaria dizer.

A sorte favoreceu as boas intenções de Margarete. A solução para os problemas se apresentava, afinal, assim, meio sem querer, sem premeditações, sem planejamentos elaborados, como acontece com todas as grandes ideias. Encontrara uma estrutura perfeita e segura para acolher os filhos. Uma casa grande, habitada por pessoas de bom coração, como já pudera observar. Havia um pátio colossal, perfeito para as brincadeiras. Das janelas da casa, costumava sair cheiro de bolos quentinhos e de café. Tinha até piscina. Era gente bem sucedida na vida, com absoluta certeza. Margarete lançou-se à estratégia. Tinha pressa em organizar o futuro! Após dias de vigília, o plano ganhara contornos. Em uma manhã de domingo (são as manhãs mais calmas da semana; ideais para colocar em prática esse tipo de projeto), bem cedinho, carregou os pequenos e os deixou na porta do novo lar. Ficou observando à distância. Do seu esconderijo, observaria o susto da família.

Em choque e completamente alvoroçada, a família começou a alojar os recém chegados. Os encaminhamentos futuros, planejariam depois. Não dá para deixar dois bebês na rua, seria muita desumanidade! E com bebês é  necessária toda uma logística. Tem que ver comidinha especial, caminha adequada,  brinquedos, toda essa parafernália. Todos na família acharam até empolgante essa ocupação não prevista na rotina diária. Não tardou para que ficassem completamente arrebatados pelos bebês. Como puderam viver sem essas gracinhas? Ninguém lembrava mais da vida de antes. Logo vieram as consultas e as vacinas. E ninguém mais falava em entregá-los para adoção.

Satisfeitíssima, de longe, Margarete acompanhava o processo. Diuturnamente, certificava-se de que os bebês estivessem bem alimentados e cuidados. Para a sua alegria, eles cresciam a olhos vistos e brincavam muito serelepes naquele pátio de proporções tão generosas. Podia, agora, seguir a sua vida, pois estabilidade nunca lhe atraíra mesmo. Era coisa para as indefesas! Também era pouco afeita a esse tipo de amor que prende. Os filhos estavam encaminhados. Sentia-se livre novamente, e o mundo não tinha mais fronteiras.

Margarete era uma gata de rua, mas poderia ser uma mulher como qualquer uma de nós!

Mariléia Sell é Professora Doutora dos Cursos de Letras e Comunicação da Unisinos

 

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