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ENTRE DOGMAS E HIPOCRISIAS – Crônica de João Eichbaum

16 de maio, 2018 às 12:15 - por João Eichbaum

A paixão pode ser cúmplice do silêncio. Mas o véu do silêncio pode não resistir à pressão das esperanças perdidas, da desilusão, da frustração pela paixão não correspondida: essas pequenas perversidades são capazes de urdir a vingança do desprezo.

Com lesões na cabeça e nos membros inferiores, uma mulher, acompanhada pela mãe, foi medicada na emergência do hospital. Mas se negou terminantemente a revelar a origem dos ferimentos.

Instauradas a partir do boletim médico do hospital, as investigações policiais tropeçaram no silêncio oposto pela mulher. Só um ano depois raiou o dia, que parecia impossível, da revelação. A paixão dera lugar ao fim de todas as esperanças de reconciliação, transformando os suspiros em lágrimas: seu agressor era um padre, a quem a mulher se entregava em noites furtivas.

A Igreja Católica usa o voto de castidade como mensagem romântica do celibato sacerdotal, para fazer do padre um bípede diferente, circundado pelo resto da humanidade. Mas essa réplica infamante das vestais de Roma não passa pelo teste da natureza.

Não é segredo algum: todo mundo sabe que o sexo é uma função biológica. Os aparelhos reprodutores são instrumentos de que se vale natureza para a preservação do gênero animal, do qual o homem é espécie. Sem o sexo, os animais já teriam desaparecido da face da terra. Trata-se de uma das funções essenciais da natureza animal. É a que ocupa o cume na escala dos prazeres da vida, exatamente para mostrar que a vida depende dela.

Perversidades e deserções do estado clerical demonstram a hipocrisia do celibato como distinção outorgada aos “escolhidos por Deus”. E, se não bastassem os incontáveis casos de pedofilia, que despertam “angústia apostólica” no Sumo Pontífice, o Rio Grande do Sul apimenta agora a história negativa da Igreja, com o padre de Caxias do Sul que resolveu abandonar a solidão dos lençóis e acabou espancando a amada.

Tendo levado a sério as lições do apóstolo Paulo, que mandava as mulheres se submeterem aos homens, o padre vai ser indiciado como um joão ninguém qualquer, desses que enchem a cara no sábado e descontam suas frustrações em cima da patroa. Agora ele terá que se preocupar mais com o rito da Lei Maria da Penha do que com a liturgia da missa.

 

Autor

João Eichbaum

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