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“Ela me seduziu”, diz o estuprador de uma menina de 5 anos – Crônica de Mariléia Sell

14 de janeiro, 2018 às 20:37 - por Mariléia Sell

O recente episódio da carta assinada pelas 100 francesas (incluindo Catherine Deneuve), como resposta ao movimento “Eu também”, que estimula as mulheres a denunciarem o seu “porco abusador”, causou alvoroço. De polêmica em polêmica, ouvimos de tudo, até absurdos que deveriam ser caso de polícia, como é o caso do texto esquizofrênico de Danuza Leão, em que ela diz que as mulheres deveriam ser assediadas ao menos três vezes por semana para serem felizes.

Primeiramente, é importante dizer que assédio é diferente de sedução, conceitos que ficaram promiscuamente misturados na carta das irmãs francesas. Não se pode misturá-los, são incompatíveis sob o ponto de vista teórico. Sua mistura gera argumentos insanos, como as da vovó Danuza. Em uma cultura machista como a nossa, espera-se que o homem tome a iniciativa no jogo da sedução. Se a mulher o faz, ela é puta, não é mulher “pra casar”. Mulheres com iniciativa são umas megeras temperamentais, trazem dor de cabeça, argumentam, pensam: devem ser evitadas, como já estamos carecas de saber. Culturalmente também se assimilou que o homem tem o direito de insistir na conquista, mesmo com sinais evidentes de que a mulher não está interessada (muitas vezes não estamos mesmo, porque andamos mais exigentes e o casamento já não é nosso único destino!). Culturalmente, o homem tem o salvo-conduto de assobiar, de dizer obscenidades para as mulheres na rua, porque, afinal de contas, é “coisa de homem”. Culturalmente, o homem explora, bate, molesta, estupra e mata mulheres (e crianças também) e todas essas violências ficam relativizadas pelo mito de uma sexualidade supostamente irracional, incontrolável.

Não é novidade nenhuma dizer que o homem goza de uma licença social maior para viver a sua sexualidade. Em contrapartida, culturalmente, as mulheres sempre tiveram um controle rígido sobre seus corpos e suas sexualidades. Exatamente por isso é que devemos celebrar cada avanço que os  feminismos (no plural mesmo) nos trouxeram. Exatamente por isso é que devemos lamentar quando as próprias mulheres reforçam o machismo e incentivam a cultura do assédio, concedendo o direito aos homens de avançarem o sinal, sob o pretexto de que isso faz parte da sedução. Este é, na verdade, o triunfo máximo do machismo, quando as próprias vítimas  relativizam o estrago que ele faz, quando as próprias vítimas não reconhecem o abuso e não conseguem diferenciar assédio de sedução. Exatamente por isso é que todas deveríamos ser feministas e por isso mesmo eu lamento quando mulheres desdenham deste movimento. Prefiro pensar que é por ignorância mesmo!

Quando o assunto é assédio não podemos fazer concessões. É um dever que temos para com todas nós, com todas as meninas do planeta (meninos também), com nossas filhas (filhos também), com nossas netas (netos também).  Assumir uma postura radical contra o abuso é um ato de generosidade e de empatia, porque vai criando a consciência de que abusar é inadmissível, é criminoso e não é “coisa de homem”. “Coisa de homem” é refutar radicalmente a cultura do assédio e avançar para não ouvir mais afirmações como a do estuprador que disse ter sido seduzido por uma menina de 5 anos, para justificar a sua ação.  Este estuprador faz parte dos meus dados de doutorado, quando analisei 50 narrativas de abuso sexual. Ele é real, ele existe, está no mundo e acha que tem o direito de dispor dos corpos de meninas porque a sua sexualidade é incontrolável. Há muitos deles por aí, por isso temos o dever moral e cristão de destruir essa cultura do estupro, da violência e da aniquilação da outra (e do outro).

Mariléia Sell é Professora Doutora dos Cursos de Letras e Comunicação da Unisinos e Secretária Adjunta de Educação de São Leopoldo

 

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