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E aí, sobreviveu ao natal? – Crônica de Mariléia Sell

29 de dezembro, 2017 às 13:46 - por Mariléia Sell

No dia 26, escuto, sem querer, evidentemente, a minha mãe perguntar à sua irmã se ela havia sobrevivido ao natal. É uma conversa que somente mães poderiam ter; mães exaustas de providenciar os infindáveis preparativos para a grande reunião familiar do ano. Sim, porque é consenso que natal que se preste é celebrado em família; não existe nada mais familiar do que o natal. É consenso também que cabe às mães a tarefa de decorar, limpar e cozinhar; faz parte da sina das mães desde que o mundo é mundo.

Fiquei pensando na pergunta. Essa pergunta, na verdade, não saiu mais da minha cabeça. Sim, é preciso certa força para sobreviver ao natal, para sobreviver a tanta família. A reunião familiar anual cobra um preço, o preço de rever todo mundo, mesmo aqueles que não desejaríamos, se tivéssemos a mais remota opção. É tempo de ouvir a opinião de todos sobre os mais diversos assuntos, quer queiramos ou não, e normalmente não queremos; de política a astrologia, de religião a economia. Não raras vezes a mesa do fraternal encontro vira palco de discussões acaloradas e as brigas só se resolvem no próximo natal, quando o espírito cristão arrefece novamente os ânimos e todos estão novamente comovidos com os apelos de altruísmo e perdão, tão típicos desta festa.

É também neste encontro anual, embalado por clássicas canções de fraternidade e amor, que as famílias se atualizam dos pequenos dramas da vida de cada um: quem separou, quem casou, quem trocou de emprego, quem comprou o melhor carro. Quem engordou, quem emagreceu, quem está suspeitamente mais jovem. Sim, nestes tempos natalinos é que se mede a competência de cada um na vida, sem dispensar discretos olhares de reprovação àqueles primos que não deram certo, que resultaram em puro desgosto para a família. Esses maus exemplos rendem assunto durante o ano todo e assumem explícita finalidade pedagógica quando há crianças por perto.

Nessas festas santas há também sempre aqueles que exageram nas bebidas e têm acessos de sinceridade. Sinceridade, como sabemos, é contraindicada para manter aquela famosa liga social.  Não é novidade para ninguém que uma certa dose de hipocrisia é desejável para manter as relações familiares intactas. Não seria recomendado, por exemplo, nesta reunião anual, desenterrar desavenças de cinco gerações atrás, menos ainda, cobrar dívidas propositalmente esquecidas pelos devedores. Tampouco seria recomendável tecer comentários sobre os presentes de amigo secreto. Entrar nesta brincadeira significa assumir tacitamente o elevado risco de receber algo desconcertante. E não adianta combinar valor; não há limites para a imaginação das pessoas quando o assunto é comprar presentes e fazer economia ao mesmo tempo.

Mas, voltando a pergunta da minha mãe, natal é, sim, tempo de sobreviver. De sobreviver a toda a pressão que a festa incita, a pressão de convivência familiar, de harmoniosa e pacífica convivência familiar. Todas as mensagens natalinas reforçam incessantemente a importância da família, repetem sem parar que a família é o bem mais precioso que uma pessoa pode ter na vida. Imagens idílicas de famílias confraternizando em volta de mesas lindamente decoradas (decoradas por mães exaustas) expressam a felicidade do reencontro para celebrar o nascimento de Jesus (embora esse detalhe, às vezes, seja esquecido no frenesi da festa).

É preciso sobreviver à família, definitivamente. É preciso, às vezes, despir-se da ideia romantizada de que a família é sempre este lugar emocionalmente seguro. Famílias podem ser muito abusivas, famílias podem destruir a autoestima de alguém. Talvez uma perspectiva mais realista dessa agregação causasse menos mal-estar nessas festas, menos tristeza e menos sentimento de desajuste. Uma relativização da boa família cristã causaria menos sofrimento e, quem sabe, abriria a nossa mente para a compreensão de que outras organizações familiares são possíveis e, muitas vezes, muito mais saudáveis.

Mariléia Sell é Professora Doutora dos Cursos de Letras e Comunicação da Unisinos e Secretária Adjunta de Educação de São Leopoldo

 

 

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