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A desigualdade das fantasias e a observação da realidade – Artigo de Marcus Diesel

08 de junho, 2017 às 13:47 - por Marcus Diesel

Em meio à crise política da República, na qual mais um importante capítulo está sendo
escrito no julgamento da cassação da chapa Dilma-Temer no TSE, e à iminente dança das cadeiras no governo de São Leopoldo, com o Executivo lidando com voraz disputa de poder e espaço entre os partidos que compõem o governo, um episódio despertou polêmica e um amplo debate em nível nacional, envolvendo e revolvendo passado, presente e futuro: uma atividade de “integração” dos alunos do terceiro
ano do ensino médio da Instituição Evangélica de Novo Hamburgo (IENH), denominada “Se nada der certo”, em que se vestiam como trabalhadores cujas funções que não requerem ensino superior e que, conforme nota da escola publicada na sua página no Facebook, visava “trabalhar o cenário de não aprovação no vestibular”.
Na ocasião, os alunos se fantasiaram de faxineiros, garçons, vendedores, atendentes,
ambulantes, tudo retratado como algo positivo e “descolado” em notícia inicialmente veiculada por um site para o público jovem.

O evento foi duramente criticado e virou polêmica nas redes sociais, chegando
a ser repercutido na grande mídia. A discussão trouxe à tona, inclusive, registros de semelhante atividade ocorrida no colégio Champagnat, de Porto Alegre, em 2015.
O tema não é de somenos importância, como apontaram alguns. Pelo contrário. Na atual conjuntura, a estrutura política do financiamento empresarial e do presidencialismo de coalizão estãoemparedadas, com suas entranhas expostas pela Operação Lava Jato e seus caciques presos, investigados e processados.

O mesmo sistema, em sua faceta econômica, o chamado capitalismo clientelista ou de
compadrio, também foi posto em xeque. A expectativa que se tem é que, investigados os contratos do BNDES, as medidas provisórias e leis que permitiram a formação, expansão e enriquecimento de grandes conglomerados sejam devastados, inclusive alcançando o sistema financeiro privado, sem o qual as movimentações das gigantes quantias oriundas da corrupção não poderiam ocorrer.

Estamos arranhando uma estrutura, embora ainda seja necessário muito trabalho e mudanças para derrubá-la. Urge construir outra a médio e longo prazo, para que as novas gerações não convivam com uma realidade na esfera pública tão nefasta quanto a atual.
Coincidentemente, nesta semana, em sua fala no evento “Fronteiras do Pensamento”, na UFRGS, o sociólogo francês Gilles Lipovetsky defendeu que a atual crise de valores que permeia a estrutura política, social e econômica só pode ser superada pela educação, que se apresenta como a única forma de redirecionar as prioridades e reformar as bases do modelo atual, representado pelo conceito de
sociedade do hiper consumo.
Quando uma instituição tradicional de ensino permite e referenda a prática de
preconceitos disfarçados de atividade de cunho (supostamente) lúdico, cabe refletir sobre que valores e práticas de educação (ou escolarização) estão sendo repassados aos alunos. Em nosso país, de gritantes e inegáveis desigualdades, as pessoas se encaixam no perfil de atores sociais, no sentido weberiano, pelo que é corriqueiro se enxergarem e construírem sua subjetividade a partir de sua colocação profissional, bem como prejulgarem o outro a partir dessa mesma lógica. Tal enquadramento, produtor de inúmeros preconceitos, é pouco ou nada questionado, o que faz com que alguns o considerem “natural”.

A prática de uma atividade desse tipo e sua justificativa partem de uma ética instrumental perversa, que passa longe do respeito à humanidade do outro e que beira o deboche e a ridicularização, com notória inferiorização de algumas profissões e seus agentes.
A ofensividade e o erro da proposta decorrem também da infeliz escolha do título da
atividade e das suas circunstâncias, que reforçam a ligação do sucesso escolar à aprovação no vestibular e acesso futuro a empregos com renda mais elevada, status social e atividades tidas como dotadas de maior dignidade, que permitem a inserção satisfatória do sujeito na esfera do consumo e do estamento.

Além disso, não estimula o pensamento crítico e o debate sobre o trabalho, o valor social de cada atividade laboral, a trajetória do sujeito e a (des)igualidade de oportunidades, a realização pessoal e a expectativa com relação ao que realiza no dia a dia. Com efeito, uma atividade desse quilate deveria ser pautada pela avaliação das
profissões com discrição e respeito, envolvendo o conhecimento e crítica sobre a complexidade do emaranhado de fatores que determinam a escolha de uma profissão. Igualmente, é imprescindível uma reflexão crítica sobre as estruturas do mundo que espera os alunos lá fora, sua história e fatores determinantes. Nada disso foi feito. Portanto, mais do que nunca o debate desses temas é necessário.
Termino citando reflexões necessárias de dois historiadores contemporâneos: o
professor leopoldense Leandro Karnal, em trecho de análise específica sobre o caso, e o professor carioca Luiz Antônio Simas, sobre a estrutura de formação social do Brasil.
“A melhor atividade para alunos de classe média e classe alta seria fazerem um estágio
de uma semana pegando dois ônibus, ficando de pé um dia todo numa lanchonete e ganhando pouco, atendendo clientes arrogantes e, ao fim do dia, com sorte, conseguirem estar em uma escola pública até 22h30 da noite para após tudo isto, voltarem para casa com mais dois ônibus.

Tenho certeza de que uma semana nesta rotina mudaria muita coisa na concepção destes alunos sobre o mundo, seus valores e seus preconceitos.

O aluno que estava fantasiado de ‘fracassado’ teve sua roupa lavada e passada , sua comida feita, seu transporte garantido e tudo mais porque existem ‘fracassados’ que trabalham para ele.” (Leandro Karnal).
“Há quem diga que o Brasil deu errado. Discordo e recentemente escrevi sobre essa
ideia. O Brasil foi projetado pelos homens do poder para ser excludente, racista, machista, homofóbico, concentrador de renda, inimigo da educação, violento, assassino de sua gente, intolerante, boçal, misógino, castrador, famélico e grosseiro. Somos isso tudo, não? Neste sentido, desconfio que nosso problema não é ter dado errado.

O Brasil como projeto, até agora, deu certo. Somos um empreendimento escravagista fodidor dos corpos extremamente bem-sucedido. Fazer o Brasil começar a dar errado é a nossa tarefa mais urgente” (Luiz Antônio Simas).

Marcus Diesel é  Servidor Público, bacharel em direito e mestre em filosofia

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