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CRIANÇAS PARA CONSUMO ADULTO: A SAGA DO BIQUÍNI – ARTIGO DE MARILÉIA SELL

13 de dezembro, 2017 às 20:43 - por MARILÉIA SELL

É chegado o tempo do verão. Tempo de biquíni, tempo de corpos à mostra. Todos os anos inicia-se a saga da busca pelo biquíni perfeito para uma menina, a minha menina, uma criança. Houve anos em que circulei por várias cidades da região para encontrar algo que fosse adequado para o seu corpo pequeno. Ou a calcinha é muito cavada, ou a parte de cima é estilo cortininha, que, na primeira entrada na água, vai parar no pescoço da criança.

Muitas vezes conversei com as atendentes das lojas, tentando explicar que crianças precisam vestir roupas confortáveis, sem muitas tiras e cavas. Explicava também que a erotização precoce das meninas é um grande problema, por que as torna ainda mais vulneráveis ao abuso, expostas a olhares libidinosos de adultos. A fetichização da infância, definida pela professora da UFRGS, Jane Felipe, como uma espécie de “pedofilização” da sociedade, transforma as crianças em um produto a ser consumido. Assim, quando o mercado oferece uma gama de produtos adaptados do mundo adulto para as crianças, especialmente para as meninas, como sandálias de salto, roupas sensuais, maquiagens, biquínis cavados, soutiens, é preciso analisar o fenômeno.  Isso sem entrar no mérito dos produtos culturais, como músicas e filmes.

No reverso da mesma moeda, há a supervalorização do universo infantil em produtos para consumo adulto, como é o exemplo das fantasias eróticas de colegial, de boneca, de lolita. A erotização da infância é perigosa porque aciona no imaginário social uma certa disposição para a sexualidade. Há que se levar em conta sempre que a criança está em total desequilíbrio na relação com o adulto: de poder, de saber e de força, por isso qualquer ação que a exponha só aumenta esse desequilíbrio, colocando-a em risco.

Pois bem, estava falando dos biquínis. Finalmente, encontrei um biquíni adequado para a minha menina, por que expliquei para a responsável pela confecção o que eu queria. É largo e confortável, com lindos desenhos de pôneis. Precisei ‘apenas’ remover o enchimento: afinal de contas, uma menina de oito anos não precisa ostentar peitos, não é mesmo?

Mariléia Sell é Professora Doutora dos Cursos de Letras e Comunicação da Unisinos e Secretária Adjunta de Educação de São Leopoldo

 

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