Hoje é segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Publicidade

A busca pelo comum na democracia – Artigo de Marcus Diesel

07 de julho, 2017 às 15:03 - por Marcus Diesel


Artigo de Marcus Diesel

Uma característica fundamental das sociedades antigas, que se consubstancia num dos pilares de construção da própria humanidade tal qual a conhecemos é a formação de vínculos comunitários. A comunidade, até não tanto tempo atrás, era um elo estabelecido entre os indivíduos, uma ligação entre os membros que compartilhavam semelhantes tempo e circunstâncias de existência, um sentimento concreto que era reconhecido e fomentado. A vida em comunidade implicava, em diferentes escalas (ressalve-se, entre indivíduos que se consideravam como iguais, não se olvidando que a escravidão e o patriarcado marcam quase por completo toda a história humana), deveres de respeito, colaboração, solidariedade e cuidado. Tais laços, de distintos graus de espontaneidade de acordo com o grupo, efetivamente formavam relações sociais que tinham como objetivo alcançar algo em comum, um interesse coletivo.

O ponto de virada de séculos de vida em bandos, tribos e civilizações distintas não é exato, mas muitos o atribuem à guinada trazida pelas ideais de René Descartes (1596-1650), filósofo, físico e matemático francês, que serviram como base para o pensamento científico, através do racionalismo e do ceticismo metodológico. A partir de Descartes, inaugurou-se a cultura do sujeito, da subjetividade, do “eu”, do ego. Sua filosofia, denominada cartesiana, é decisiva para a afirmação da autonomia do indivíduo como um ser pensante. “Se penso, logo existo” é o brocardo que, ainda que não exprima com exatidão o sentido do cogito, foi popularizado e é ligado à sua filosofia.

O pensamento cartesiano, que se pretendia universal, influenciou toda a produção do conhecimento ocidental desde então, inclusive a visão mecanicista e individualista do ser humano, possuindo um legado profícuo. Contudo, a partir de sua filosofia, paulatinamente, fortaleceu-se o prisma subjetivo do sujeito que enxerga as coisas a partir de si, levando a um certo distanciamento do outro. A influência dessa forma de pensar o mundo chegou a todos os campos do saber, incluindo a economia política. O cartesianismo, enfim, colocou o sujeito como sendo a realidade principal.

Embora deva-se render loas à potencialidade do pensamento cartesiano, que inclusive foi motor do Estado laico, ele gerou uma separação entre a consciência de si, corolário da subjetividade, e (a falta de) consciência do outro, criando assim um abismo nas relações sociais. A constituição do sujeito cuja construção da subjetividade é essencialmente voltada para si mesmo colocou o outro num horizonte distante, expandindo a ideia de que cada juízo tomado pelo indivíduo se refere à consciência que tem de si e àquilo que identifica no seu entorno como inerente a tal consciência, afastando demasiadamente a possibilidade de ter consciência do outro de alguma maneira não colonizadora, ou seja, que não exprima sobre o outro a perspectiva do próprio ego, sem de fato “enxergar” que é o outro que se lhe apresenta.

Não foram poucas as manifestações desse abismo, geradoras de discriminação, distanciamento e até mesmo genocídios ao longo da história. A civilização e cultura do individualismo, do egocentrismo, foi se exarcebando e influenciou no modelo de construção da cultura, da economia e da política – principalmente quanto à democracia.

Há inúmeras críticas à insuficiência da democracia no sentido de não funcionar como um regime de autogestão coletiva (o que, em teoria, deveria ser), mas sim de gestão de interesses próprios de quem está no comando do regime, com a garantia apenas de um regime de democracia de mínimos aos que formam sua base, de forma escalonada, sob a égide de um modelo jurídico formal que sustente sua existência. Uma parcela considerável da população vive entre o escasso acesso e a ausência de democracia, eis não possui os direitos, inclusive de participação no poder, que lhe são reconhecidos, formalmente, nas Constituições. Ocorre que o ideal democrático de uma sociedade formada por pessoas que se autogovernam de maneira coletiva, visando objetivos comuns (ou seja, o autogoverno coletivo do comum) vem se mostrando falho diante do modo de construção da subjetividade dos indivíduos, o que tem lhe gerado um desgaste incomensurável.

Com efeito, a perspectiva da construção de governos efetivamente democráticos sem que haja, inicialmente, uma modificação radical no modo de constituição das subjetividades não é empolgante. É necessário não apenas buscar resgatar os vínculos comunitários de outrora, eis que a marcha da história é para a frente e o mundo se tornou complexo demais, mas é necessário pensar a construção de projetos, comunidades e sociedades, por conseguinte, em que a base de condição de existência dos sujeitos que os constituam esteja não mais no si mesmo, mas no outro. A alteridade, que se manifesta no trauma do encontro com o olhar do outro que reclama (e clama por) responsabilidade, é o caminho que se apresenta. Como seria uma ética em que o princípio da moralidade fosse o outro, e não o “eu”? Seria possível a construção da democracia baseada em tal “ethos”? São perguntas que não podem deixar de ser feitas.

Marcus Diesel é Servidor Público, bacharel em direito e mestre em filosofia.

Publicidade

2016 - Todos os direitos Reservados