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BRIZOLA TINHA RAZÃO? – Artigo de Juliano Maciel

19 de fevereiro, 2018 às 15:43 - por Juliano Maciel

O colapso na segurança pública do Rio de Janeiro e a intervenção federal no Estado suscitaram um grande debate nacional sobre o tema. É um momento propício para debatermos tudo o que foi feito por lá nos últimos 30 anos, o que possibilita também analisarmos um pouco o Brasil como nação. Vou me ater a tentativa do ex-Governador Leonel Brizola (1983-1986 e 1995-1998) de enfrentar o problema com uma abordagem totalmente diferente dos seus pares.

O Brizola e o Darcy Ribeiro já no começo da Década de 80 se deram conta da profundidade do problema da segurança pública carioca. A partir deste diagnóstico, optaram acertadamente por uma abordagem que visava atacar a causa do problema, e não apenas enxugar gelo. Então, surgem os CIEPS: escolas de educação integral, onde as crianças passavam 8h do dia. Lá, elas tinham assistência médica, odontológica, educação regular num turno e reforço e oficinas no outro, piscinas e 5 refeições. As mães podiam trabalhar sabendo que deixavam seus filhos no melhor local possível, e não à mercê do tráfico e da marginalidade. Era uma clara tentativa de pactuação com as camadas mais excluídas da população, onde as facções criminosas avançavam cada vez mais no vácuo deixado pelo Estado.

O problema é que a elite carioca (capitaneada pela Rede Globo) se ofendeu com o investimento de 1 milhão de dólares em cada uma daquelas enormes escolas projetadas por Niemeyer nas comunidades mais pobres do RJ (estas eram as obras “faraônicas”, “populistas” de que falavam. O pior de tudo foi ver boa parte da esquerda endossar esse posicionamento…). Pobre estudando em escola de primeiro mundo? Não pode! Então, a oposição foi raivosa. Tentaram colar a imagem de Brizola como um governante que fez aliança com os barões do jogo do bicho. Na verdade o que ocorreu é que foram terminantemente proibidas as incursões da polícia que visavam basicamente chutar a porta dos barracos indiscriminadamente. No fundo, tem muito “cidadão de bem” que tem uma tara reprimida em ver a polícia entrando na favela e quebrando tudo (se pegar gente honesta e trabalhadora ou marginal tanto faz).

Enfim, Brizola fez a opção de tratar a enorme fatia de excluídos do RJ com dignidade, visando salvar as próximas gerações. Teve uma oposição feroz da direita e de parte da esquerda e não conseguiu o êxito que o projeto merecia (ao todo foram construídos 502 CIEPs). Importante também citar outro dado inaceitável por parte de seus opositores: no seu segundo mandato como Governador do RJ, chegou a destinar 58% do orçamento do Estado para a Secretaria da Educação. O que seria do RJ hoje, se o projeto dos CIEPs nunca tivesse sido interrompido? O que seria do Brasil hoje se Brizola tivesse chegado à Presidência em 1989? Nunca saberemos com exatidão, mas tenho convicção de que a realidade seria bem mais alvissareira. Talvez não teríamos que ter presenciado a ascensão desta turma do ódio atual, que defende sem nenhum constrangimento aberrações como a ditadura militar e todo e qualquer tipo de repressão por parte de um Estado pretensamente policialesco. Concluo respondendo a indagação que dá título a este artigo: sim, Brizola tinha razão, a saída era pela educação.

Juliano Maciel é Cientista Político

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