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Aos novos inimigos da nação: “professores deixem a inocência de nossas crianças” – Artigo de Mariléia Sell

02 de março, 2018 às 20:48 - por Mariléia Sell

Não, não se trata de uma nova versão de Another brick in the wall, de Pink Floyd.  Trata-se da versão leopoldense de alguns pastores preocupados com a formação que os professores estão dando nas suas salas de aula.  “Professores, deixem a inocência de nossas crianças”, pudemos ouvir no plenário da Câmara de Vereadores, nesta semana, em uma sessão que durou quatro horas.  Como se já não fossem suficientes os perigos do mundo na vida de qualquer criança brasileira (pobreza material, pobreza intelectual, violência, exploração, abandono), agora temos ainda que defendê-las dos professores, os novos inimigos públicos. Estes que andam sempre tão dispostos a inserir ideias pervertidas e esquerdistas na cabeça dos alunos, aproveitando-se deliberadamente da audiência cativa dos estudantes e de sua posição de poder na sala de aula.

Alguns agentes políticos de São Leopoldo andam seriamente envolvidos com os rumos da educação. Por isso mesmo, esses agentes propuseram uma audiência pública para debater e defender o projeto Escola Sem Partido, na última quarta-feira (28). Entre os debatedores, uma mesa composta pelo vereador proponente do projeto (do PMDB), vereadores da base evangélica e integrantes do MBL. A audiência achou desnecessário chamar educadores para compor o debate. Isso, em parte, pode explicar a afirmação de um pastor que diz que professor não é profissional, que para ensinar basta ter vocação. Como não somos profissionais, qualquer um fica autorizado para falar por nós, certo? Como não somos profissionais, os conhecimentos que temos são, também, questionáveis. Nesse sentido, para nos atualizar sobre as teorias pedagógicas, o proponente da audiência afirma que quando um professor opta por uma área do conhecimento, abdica de todas as outras áreas, ou seja, não pode relacionar a sua área de estudos com outras áreas. Interessante que o vereador contradiz todas as teorias pedagógicas e todo o acúmulo teórico que a academia tem sobre a importância da interdisciplinaridade e sobre a não compartimentalização do conhecimento, já que a pessoa, na vida real, aciona os conhecimentos de todas as áreas para resolver situações concretas. Uma pena que ele não apresentou as suas bases teóricas para que nós, não profissionais, nos informemos melhor!

Como os professores não ensinam direito, como bem frisou a representante do MBL convidada para a audiência, ancorada nos dados nacionais sobre os baixos índices do IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), não há necessidade de chamá-los para o debate. Como incompetentes e fracassados que são, alguém de fora do contexto educacional precisa dizer como eles devem ensinar. Nada mais óbvio, não é mesmo? Estatística pura, porque educação é isso: são números! Como é que nós, professores, não pensamos nisso antes? Precisou surgir o MBL para nos chamar à razão. O Banco Mundial, por exemplo, concluiu a mesma coisa: a educação brasileira vai mal, então mandaram cortar recursos. A nossa república, obediente que é, acatou a opinião e congelou os investimentos na área para os próximos 20 anos!

Na esteira do Escola sem Partido, há uma questão crucial que está tirando o sono de muitos pastores e também de incontáveis cidadãos de bem e de políticos e que ficou latente na já referida audiência: trata-se da tal da “ideologia de gênero”. Agora os professores deram para interferir na sexualidade das crianças, pode isso? Eles andam com um interesse pervertido em transformar heterossexuais em homossexuais, bissexuais, transgêneros, assexuais ou travestis. Além disso, há especulações de que há a exposição das crianças à pornografia nas escolas. Como se não tivessem mais nada para fazer na vida, estão confundindo as crianças sobre o seu gênero. Judith Butler, alguns pastores de São Leopoldo acham que você está errada quando diz que as pessoas vão se constituindo ao longo da vida como sujeitos que têm uma identidade sexual que nem sempre condiz com o sexo biológico. Está errada também quando explica que gênero, sexo e sexualidade são coisas diferentes, embora relacionadas.  São Leopoldo sugere que você, Butler, revisite as suas teorias e que não deixe de ler a bíblia, por favor. Alguns agentes políticos acham, também, que discutir gênero deve seguir uma vertente comportamental e que não deve discutir relações de poder entre homens e mulheres. Aliás, as teorias de gênero (não a “ideologia de gênero”, que sequer existe) ocupam-se dessa pauta: equalizar direitos e deveres de homens e mulheres. Por que tanto furor? A quem interessa calar essas discussões? Uma coisa ficou muito clara na audiência: os professores não devem interferir na educação sexual das crianças, não devem problematizar essas relações de poder: a igreja, a mídia e as famílias fazem isso muito melhor!

Quanto à tão desprestigiada constituição brasileira, ela diz, sobre os direitos fundamentais do cidadão, que a República Federativa do Brasil tem como objetivo fundamental “construir uma sociedade livre, justa e solidária e promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outas formas de discriminação.” Sendo assim, não precisa ter estudado muito para perceber que o projeto do Escola sem Partido é inconstitucional (se bem que a Constituição não está valendo muita coisa nesses tempos que correm). A constituição brasileira diz ainda que o estado brasileiro é laico, ou seja, não professa nenhuma crença, não mistura as questões da igreja com as do estado, como se fazia na Idade Média. Nada contra nenhuma igreja, embora eu não frequente nenhuma, mas as escolas e as igrejas têm propósitos diferentes e nunca vi nenhum professor dizer como o pastor ou a pastora devem conduzir as suas atividades nas igrejas. Quanto aos políticos, parece-me anômalo discutir pautas específicas da educação sem chamar aqueles que lidam diretamente com a educação, porque, lembremos sempre, a política, em sua concepção original, deve atender aos interesses da pólis. Essa atitude de exclusão do debate, por si só, diz tudo sobre o que alguns políticos pensam de nós, professores e professoras.

Mariléia Sell é Professora Doutora dos Cursos de Letras e Comunicação da Unisinos e Secretária Adjunta de Educação de São Leopoldo

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