Hoje é terça-feira, 22 de maio de 2018

Publicidade

Ainda não se disse tudo sobre Lula: acrescente-se aos autos – Crônica de Mariléia Sell

28 de janeiro, 2018 às 20:09 - por Mariléia Sell

Por uma questão de cautela epistemológica, não falo do que não entendo, do que não estudei. Sou ciente dos meus campos de ignorância e tenho o cuidado de poupar o mundo com os meus achismos; tenho também cada vez menos paciência com os achismos dos outros. Sempre falo para os meus alunos de texto argumentativo que dizer que não se tem uma opinião formada sobre algo é sinal de honestidade intelectual e que as pessoas deveriam se preocupar mais com aquilo que saem afirmando por aí. Assim como a roupa que vestimos, nossas opiniões são também elementos que vão formando a nossa imagem perante o mundo. Dessa forma, informar-se antes de sair disparando opiniões (em fontes seguras, diga-se) é um ato de amor próprio, um cuidado para não sair queimando o filme. Essa regra aplica-se para todos os temas, inclusive política.

Sobre o julgamento de Lula, no TRF4, que o condenou a 12 anos e um mês de prisão em regime fechado, tudo já se disse. Será mesmo? Tenho lido textos brilhantes de filósofos, sociólogos, juristas, questionando o processo, alertando para os perigos que avizinham a nossa democracia, que sequer teve chances de criar raízes. Dizendo que o julgamento foi político e que ele abre precedentes assustadores para todos nós, que agora temos também uma justiça que pode nos condenar sem provas, só pela convicção de um juiz. Que o julgamento foi seletivo, pois temos fartos exemplos de corrupção de políticos, com provas e tudo mais, mas que nenhum Sérgio Moro aparece para acusá-los. Que a nossa imprensa manipula a realidade e é responsável, em larga medida, pela construção de demônios e de salvadores da pátria.

Como eu disse acima, não posso falar daquilo que não entendo, não posso falar como jurista, por exemplo. Quanto mais se estuda, mais se tem a consciência de que para dominar uma área de conhecimento é preciso uma vida inteira. Os ignorantes, nesse sentido, sempre estão cheios de certezas, porque sequer sabem que não sabem! Bem, não posso falar como jurista, então, mas posso falar do meu lugar social, como pessoa, como cidadã brasileira, como professora, posso falar de uma perspectiva êmica (de dentro), como se diria na Antropologia. Isso, na argumentologia, chama-se argumento de autoridade epistêmica. Significa dizer que os relatos de vida são experiências de primeira mão e que somente quem viveu essa mesma experiência tem o direito de contá-la.

Quando iniciei a minha primeira graduação, em 1992, as bolsas de estudo eram artigo de luxo; estar na universidade era para pouquíssimos. Aa federais, então, eram uma possibilidade no horizonte só para aqueles que poderiam ser custeados na capital: nunca foi o meu caso. Apesar de todo o meu esforço individual, quase passava fome para me manter na academia. Levei uma vida e meia para me formar, havia semestres em que conseguia pagar uma cadeira, havia semestres em que precisava trancar a matrícula. Assim fui, aos trancos e barrancos, até a formatura. Tornei-me jornalista em 2000. Dei por encerrada a minha vida acadêmica; não teria condições de pagar uma pós-graduação. Em 2005, submeti para o mestrado. Era uma época em que começavam a surgir muitas políticas para os estudantes pobres, como eu. Estudei muito para conseguir uma bolsa Capes, cheguei a tomar remédio para não dormir, para me preparar para a seleção. Em 2007, fiz a seleção para o doutorado; os tempos estavam ainda mais promissores para filhas de pequenos agricultores, sem dinheiro. Novamente, consegui bolsa. Não sou personalista para achar que meu esforço bastou, ele não me levaria a lugar nenhum se não fossem as políticas educacionais. É exatamente por isso que o discurso da meritocracia me causa fastio. Não basta o mérito pessoal para alcançar certos espaços, o Estado precisa oportunizar os meios. Se não fosse assim, seria, então, a lei da selva: a corrida para os velozes e a briga para os fortes. Como ficam, nessa equação, os pobres, os negros, os deficientes, os indígenas, as mulheres? Ficam pra trás na corrida: a chegada será sempre para poucos, para os eleitos! É miopia acreditar que essas categorias sociais têm as mesmas chances na vida. Pensar dessa forma é defender um darwinismo social, é, para não dizer coisa pior, falta de empatia, falta de amor ao próximo. Esse próximo, que, se não for dotado para a corrida, merece, quando muito, a caridade alheia ou o extermínio social mesmo.

Pois bem, meu argumento epistêmico é, então, de que Lula foi o melhor presidente que eu já tive e, paradoxalmente, é o único condenado, o único neste país de corruptos que é condenado sem provas. Como só eu posso falar da minha própria experiência, meu argumento é, assim, irrefutável. E antes que me acusem de que meu texto é autoritário, pois não uso mitigadores linguísticos, não lanço mão de modalizadores, adianto que isso é intencional. Sobre alguns temas, não faço concessões mesmo. Nos governos de Lula é que consegui, com o meu esforço pessoal e com as políticas de estado, subir na pirâmide social, acrescentem isso aos autos, desembargadores. Nos governos dele é que consegui construir uma identidade positiva sobre mim mesma; consegui ver que a pobreza não é um fracasso pessoal, mas uma incompetência do Estado. Consegui, finalmente, acreditar que o Brasil podia dar certo. Hoje, confesso, é difícil sustentar a minha identidade brasileira. Estou com vergonha!

Mariléia Sell é Professora Doutora dos Cursos de Letras e Comunicação da Unisinos e Secretária Adjunta de Educação de São Leopoldo

 

Publicidade

quero-quero-banner-1024x97

2016 - Todos os direitos Reservados